Ilha da fantasia
Houve uma época, no Brasil, em que se cunhou o cognome de ‘ilha da fantasia’ para a Capital Federal. Enquanto os brasileiros lutavam com as mais duras realidades, Brasília se preocupava com questões totalmente irrelevantes. Aos gabinetes do poder não pareciam chegar os problemas e anseios do povo, que enfrentava não apenas as dificuldades normais, mas também as consequências de projetos faraônicos que multiplicavam a dívida externa e o déficit interno. Os gabinetes de Brasília eram ilhas de fantasia e gastança perdulária, adequadamente protegidas pelo distante Planalto Central.
Hoje, passados 12 anos da redemocratização, pelo menos uma das fantasias do Poder autoritário parece despertar frissons no partido do Governo e no próprio presidente da República. É a fantasia do continuísmo. Pois enquanto outros mortais tomam posse em prefeituras quase todas quebradas, juntamente com seus estados, em Brasília só se pensa em reeleição. Políticos e partidos disputam votos contra e a favor, líderes nacionais se lançam a um grande ‘tour de force’ para conquistar mais adeptos, o presidente e seus ministros anunciam plantão permanente para acompanhar a situação.
Tudo se resume a uma só questão: poderá ou não o sr. Fernando Henrique Cardoso ser candidato à própria sucessão em 1998? Há outro aspecto paralelo, como a reeleição de governadores e prefeitos, mas isto é secundário. O que preocupa Brasília, o que faz parar o Congresso e o Governo, é a emenda da reeleição.
Em todas as pesquisas feitas no fim do ano sobre as maiores preocupações do povo brasileiro, a reeleição não foi sequer citada. Para a população, os grandes desafios são o emprego, o salário, a casa própria, a segurança, o tratamento de saúde, o acesso à escola pública. Também a estabilização da economia é vista como uma necessidade pela população, assim como as reformas constitucionais e estruturais que vão garantir a continuidade da desinflação.
Mas não é dessa continuidade que os líderes nacionais estão tratando em Brasília. Só lá - isto é, só para Governo federal e Congresso Nacional -, a reeleição é o principal problema da Nação. Estaria tudo muito bem se o projeto de reeleição para presidente, governadores e prefeitos viesse depois de debatidas, emendadas e aprovadas as reformas vitais para a sobrevivência da Nação. Interposto à frente das reformas, o projeto frustra a sociedade, desgasta o Governo e o presidente e pára o País.
Uma vez mais, a ilha da fantasia se sobrepõe ao Brasil real, aquele que trabalha nas cidades e nos campos e anseia por um futuro melhor que começou a vislumbrar com a derrubada da inflação. A convocação extraordinária do Congresso, que poderia adiantar não só as reformas estruturais, como também encaminhar outras soluções em nível legislativo, perde tempo precioso na discussão sobre um tema que deveria estar no fim da fila e sobre o qual o próprio presidente da República e seu partido já disseram, em março de 1994, que não apoiavam.
E como assim estamos, o melhor que pode acontecer agora é que o Congresso resolva de vez o assunto. Se disser sim, Executivo e Congresso não terão mais motivo algum para não desencalhar as reformas. Certamente, o direito à reeleição não será aquele remédio mágico que cura todos os males, mas pelo menos pode fazer com que o presidente, seus ministros, o Congresso, os líderes políticos, todos enfim que têm responsabilidades para com o País, resolvam começar a fazer o que é preciso. E se o Congresso disser não, restará apenas rezar para que o estrago não seja tão grande que faça Congresso e Governo, cada um com seus motivos, jogar as reformas para as calendas.

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