Editorial
As imagens de alegria dos que foram aprovadas na Universidade Federal do Paraná, estampadas na edição de ontem desta Folha, praticamente não mostram nenhuma diferença com imagens das comemorações de vitória na II Guerra Mundial. A única diferença fica por conta do tempo: talvez as fotos de arquivo dos jornais não estejam em tão boas condições quanto as de ontem e as que teremos dentro em breve sobre as batalhas de Londrina, Maringá e tantas outras cidades do País que estão vivendo a mesma guerra.
Se essa guerra movimenta o comércio local, lota os hotéis e engorda a receita das universidades, o fato é que tudo isso é obtido às custas de um trauma injusto e desnecessariamente imposto há dezenas de anos à juventude brasileira. As provas de conhecimento e aptidão deveriam ser outra coisa e nem por isso perderiam os atrativos comerciais. O que não pode é ser o que ainda são até hoje, máquinas de moer carne jovem e espíritos sonhadores, cheios de esperança e vontade de vencer na vida.
A juventude brasileira merece melhor sorte. Quantos vestibulares por esse país a fora e todos esses anos não cortaram vocações que poderiam ter mudado a história pessoal de muitos e contribuído para melhorar a sociedade em que vivem ou viveram? Nunca uma prova de conhecimentos poderia chegar ao ponto de ser como a espada de Dámocles sobre o pescoço de quem ousa ser alguma coisa boa na vida. E, no entanto, até hoje fazer um vestibular é a única opção dos jovens brasileiros que concluem o estudo regular de segundo grau. Ou conseguem passar - e pensam então ter assegurado uma profissão de nível superior - ou ficam à margem, condenados a esperar o próximo ano, ou o próximo inverno, ou coisa nenhuma.
O certificado de conclusão do segundo grau, que deveria servir para muita coisa se o ensino fosse melhor e profissionalizante, não serve para nada ou quase nada. Em muitos casos, um curso qualquer de computação vale mais do que os oito anos do primeiro grau e os três do segundo.
Felizmente, alguma coisa está mudando e o futuro é mais animador. A partir do segundo semestre deste ano o vestibular não será mais o único caminho para se fazer um curso superior e o Ministério da Educação trabalha para mudar a própria estrutura do ensino, propiciando aos jovens outras escolhas e não só o curso superior. São caminhos que, sem dúvida, precisam ser explorados para que o Brasil possa formar pessoas em condições de obter sucesso na vida profissional sem a necessidade de um grau superior.
A elitização do ensino em nosso País é um atraso de séculos que nos causa graves prejuízos, não só econômicos, mas também espirituais. E nem essa elitização fazemos mais direito, pois a cada ano as escolas de 2º grau descarregam no mercado contingentes de jovens que mal sabem falar ou escrever o próprio idioma. As de 1º grau contentam-se em alfabetizar uma criança até o 4º ano! Isto é, quatro anos para saberem ler, escrever e contar!
Temos um ensino básico indigente e completamente desatualizado, fora da realidade e das necessidades objetivas da vida local ou mesmo nacional. Toda a estrutura do ensino reclama uma reforma radical, do primeiro dia que a criança entra na escola até o último dia antes de seu ingresso na dura luta pela vida.
O curso superior é, obviamente, necessário e desejável. Não é, porém, o único meio de se adquirir o saber. Nem muito menos deveria ser o pesadelo que é para centenas de milhares de jovens todos os anos em todo o País. É preciso aprofundar as mudanças no ensino para construir outro país e outra vida neste País. Limitar o futuro a uma vaga na faculdade é, além de frustrante para milhões de jovens, um erro e um desperdício sádico de talentos que o Brasil tem, cruelmente, jogado à vala comum do fracasso e da desilusão.





