Organismos oficiais estão enfrentando, com enorme disposição, a tarefa de tentar localizar os abusos, pode-se dizer crimes, nos preços dos combustíveis. Já foram multados alguns milhares de estabelecimentos em vários pontos do País. Esta atuação é importante e é um dever do Estado, assim como o esforço que tem sido feito pelos órgãos de defesa do consumidor em diversos setores em que, ao invés de prestar um serviço, tenta-se fazer da chegada do cliente uma oportunidade para aliviar-lhe o bolso.
A ação oficial, porém, não é suficiente. Além de ser difícil e cara, exigindo um quadro de pessoal que o poder público não tem como pagar, o País tem as dimensões de um continente. A participação ativa do consumidor é vital. Hoje ele tem uma arma poderosíssima em seu poder: a moeda brasileira é, desde julho de 1994, mais forte que o dólar. Se ele se recusa a pagar um preço exorbitante, o vendedor fará de tudo para baixar o preço, pois precisa do dinheiro dele como água de beber.
Inversamente, se o consumidor aceita passivamente o preço alto, está sancionando a exorbitância e facilitando o saque ao seu próprio bolso. Não se trata de restaurar aquele ‘fiscal do Sarney’, até porque o que ele tinha no bolso já não valia grande coisa e meses depois não valia nada mesmo. Trata-se da ação de um verdadeiro cidadão, consciente de seu papel e detentor de dinheiro forte. Os órgãos oficiais são instrumentos importantes nesta luta, mas sem a ação direta e objetiva de quem tem o maior poder, todo o trabalho das autoridades terá pouco sucesso.
O consumidor cidadão não é, necessariamente, aquele que denuncia este ou aquele. É, ao contrário, aquele que se recusa a aceitar o abuso, que pesquisa preços e só compra o que julgar que está com o preço justo. Dá algum trabalho, mas nesta luta o consumidor tem o apoio dos órgãos de divulgação, principalmente os jornais que publicam pesquisas de preços. Em alguns municípios, as prefeituras têm feito pesquisas e as divulgam de múltiplas formas.
A livre concorrência que se procura implantar no Brasil só funciona se o consumidor tiver consciência de seu poder. Felizmente, isto já vem acontecendo no País. A queda da inflação não é só resultado da quebra da inércia inflacionária, mas do interesse dos consumidores em gastar da melhor forma possível os seus reais. Os brasileiros sentiram rapidamente o poder que passaram a ter e a importância do seu papel. Foi um efetivo despertar da cidadania na mais plena acepção da palavra. E este é um exercício que não se esgota e precisa ser realizado a cada dia, em todas as circunstâncias.
É muito importante ter em mente que a luta contra a especulação não tem fim. Aqui, no Japão, na Alemanha ou nos Estados Unidos. O problema não se resolve com tabelas de preços. O que resolve é a atuação do cidadão que tem direito de escolha e pode pressionar o explorador, deixando mercadorias na prateleira ou os estoques de álcool e gasolina nos tanques do posto que cobra mais caro.
O principal personagem em um mercado livre é quem compra. Rechaçando a exploração, ele pode forçar a queda dos preços e vencer a especulação. É uma tarefa dura, mas sem dúvida, como todos percebemos nos últimos tempos, extremamente gratificante.

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