Editorial
Positivamente, São Pedro, o guardião do tempo, perdeu seu posto. Acaba de ser substituído pelo cada vez mais famoso El Ni¤o, que passou a ser responsável por todos os desvarios climáticos que ocorrem neste pobre planeta. Choveu demais? Culpa do El Ni¤o. Seca, furacão, tufão, neve, enchentes, o que quer que ocorra, vai tudo debitado na conta do curioso personagem mundial. Quanto a nós, os que vivemos neste planeta, não temos nada com isto, como diria o garoto de inteligente publicidade sobre o vestibular: somos apenas seres humanos.
Evidentemente, é mais lógico e racional considerar que determinados fenômenos climáticos decorrem de alguns incidentes ou acidentes, nada tendo a ver com São Pedro. Mas jogar tudo o que ocorre sobre fatos aleatórios, tentando deixar de lado a responsabilidade maior dos homens sobre os estragos que fizeram no meio ambiente, tornando quase impossível a sobrevivência na Terra, não é apenas prova de ignorância. É, em muitos casos, um tipo de jogo sujo de quem não quer assumir o que faz.
Felizmente, e isto apenas nas décadas mais recentes, começou a crescer a consciência de que os seres humanos, de modo geral, têm uma grande parcela de responsabilidade sobre esta situação. A depredação pelo homem contra os elementos naturais, ao longo dos milênios, começa a produzir os efeitos. A civilização cada vez mais dependente de energia, de conforto, de facilidades, segue destruindo o planeta, derrubando florestas, queimando matas e expelindo gases venenosos sobre a atmosfera.
As consequências estão aí, visíveis e sensíveis. A camada de ozônio está sendo destruída e o ser humano é cada vez mais bombardeado por raios que antes eram absorvidos pela atmosfera. O clima esquenta, os mares transbordam, chove demais em alguns pontos, há seca em outros, a Terra, após milhões de anos de exploração, se mostra exaurida. E há a clara percepção, para um número cada vez maior de pessoas, que sem a adoção de medidas concretas, rápidas e, em alguns casos, dolorosas, a vida humana no planeta pode se tornar inviável.
A lamentar, porém, o fato de que toda esta realidade não chegou a sensibilizar ainda os dirigentes das nações mais poderosas (e também, até por consequência, as que mais poluem o mundo), como se percebe na Conferência que a ONU promove em Kyoto, destinada em princípio a conseguir acordo para medidas capazes de reduzir a emissão de gases destrutivos na atmosfera. Em Kyoto, não se trata de todo o problema do meio ambiente, só do efeito estufa. Mas nem isto parece possível resolver. Os países desenvolvidos, Estados Unidos à frente - eles que são os maiores emissores de gases nocivos do planeta -, insistem em fugir a suas responsabilidades. Na etapa da conferência que se iniciou ontem, com a presença de ministros e outros dirigentes dos países participantes, o vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, já deu o tom: seu país não vai aceitar reduções em suas emissões de gases venenosos sozinho. Quer punir outras nações, principalmente as menos desenvolvidas. Ou isto, ou continuam a destruir o mundo, que não é só deles. Uma atitude criminosamente irresponsável, que aumenta o risco da vida em todo planeta.





