Envolvido com a crise dos reféns do Movimento Revolucionário Tupac Amaru, o presidente peruano Alberto Fujimori não esquece de suas outras prioridades e está empenhado, agora, em nova campanha: seu Governo apresentou uma ‘‘interpretação autêntica’’ da Constituição que lhe garante o direito de disputar mais um mandato presidencial, que seria o terceiro. O Tribunal Constitucional peruano considerou ilegal a interpretação e só não publicou ainda a sentença devido à crise dos reféns. Entretanto, tão logo se resolva - não importa quando - a situação na residência do embaixador do Japão em Lima a questão ocupará as manchetes dos jornais.
Como já se sabe, Fujimori não se contenta com pouco. Os meios políticos peruanos não acham que a sentença do Tribunal Constitucional seja um obstáculo tão grande que leve o presidente a recuar. Afinal, para quem logo em seu primeiro mandato fechou Legislativo e Judiciário e assumiu todos os poderes, inclusive se outorgando o direito a reeleição, a decisão dos juízes não conta muito.
A pretensão de Fujimori era previsível. Embora a idéia de República - que surgiu com a libertação dos Estados Unidos do domínio colonial britânico - se baseie num sistema de governo em que o mais importante é o Estado e o dirigente é apenas um representante do povo, com mandato definido, periodicamente substituído por outro, persiste no espírito de muitos o sonho imperial.
O Novo Continente tentou se libertar do sistema vigente no Velho Mundo, em que reis ou rainhas se perpetuavam e transmitiam o poder a seus herdeiros, afirmando-se detentores do mando por expressa vontade de Deus. Em certo sentido, até que conseguiu. Mesmo o Brasil, que de colônia passou a Império e acabou aderindo à República, construiu um sistema em que os presidentes eleitos se alternaram no poder e só não governaram legitimamente quando os canhões dos quartéis falaram mais grosso.
O fato é que ao lado das instituições republicanas persiste certo sentimento nostálgico do poder real, isto é, da suposta origem divina do trono. E se não é sequer imaginável a restauração da monarquia no Continente - no plebiscito brasileiro a derrota desse sistema de governo foi fragorosa -, não faltam os que acabam permitindo que certas idéias imperiais os dominem.
Fujimori é um exemplo dessa deformação. Eleito, não se satisfez com o mando presidencial, preferindo governar sem os outros poderes - aliás, reconhecidamente corruptos na época, o que deu tons de legitimidade revolucionária ao ato presidencial. Pressionado depois a restaurar a democracia, garantiu para si o direito de disputar um novo mandato. Venceu, democraticamente, e agora quer mais um, casuísticamente.
Não é novidade que o poder ofusca e mesmo os homens mais bem intencionados acabam crendo que eles são a única salvação de seus povos. O perigo é o povo acreditar nisso também. É um risco para todos e, em muitos casos, para a própria democracia.
Fujimori criou uma mística no Continente. O incidente dos reféns em Lima compromete seu poder e suas afirmativas de que havia vencido a guerrilha. Mas isto não é suficiente para acabar com sua mística. E nem para conter a emulação nos países vizinhos. Carlos Menem conseguiu emendar a Constituição da Argentina e se reelegeu. Também deve estar pensando em um novo mandato, depois que descartou seu ministro da Economia, Domingo Cavallo. No Uruguai, já se cogita de reforma constitucional que possibilite ao presidente Júlio Sanguineti tentar a mesma proeza. E no Brasil, sabe-se, a emenda da reeleição já colocou em segundo plano todas as demais reformas institucionais.
O risco, no Peru como na Argentina ou em qualquer país, é o mesmo: a eternização de um homem no poder, sua transformação em um símbolo que acaba por obscurecer até a democracia e o próprio sentido do poder popular. Perde-se de vista a percepção de que o que é (ou deve ser) eterno é o país, não os homens. Os dirigentes passam, a Nação permanece e o único responsável por ela é o seu povo, detentor legítimo do poder.

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