Editorial
É inquestionável a capacidade mostrada pela equipe econômica do Governo federal de administrar o plano de estabilização da economia, desde seu lançamento. Em quase três anos de programa, a atuação oficial diante dos mais diferentes problemas surgidos foi na maioria das vezes rápida e eficiente, de tal modo que se conseguiu chegar ao resultado do ano passado, uma inflação anual recorde de um dígito, que nem era esperada pelo próprio Governo.
Infelizmente, este resultado não foi conseguido no que se poderia chamar de front interno. O déficit público, grande vilão de qualquer tipo de programa de estabilidade, também é recorde. Como consequência, os juros estão em patamar exagerado. Com isso, o clima de incerteza não desapareceu totalmente do cenário, pois todos sabem - Governo, políticos, empresários e sociedade - que a não solução da causa primária do problema vai prejudicar todo o restante do trabalho.
Hoje, o inimigo nº 1 da população não é mais a inflação, como mostram as pesquisas, mas isto não só porque os índices estão baixos, mas porque outro flagelo apareceu no lugar. A manutenção da inflação nos níveis atuais continua dependendo do êxito na complementação do programa, o que significa, entre outras coisas, o zeramento do déficit público. Isto, sim, assegurará um clima de certezas e será o mais poderoso estímulo aos investimentos de todos os portes, que vão gerar empregos e prosperidade.
Repetir que um dos maiores obstáculos ao sucesso do Plano Real na área interna está na não concretização das reformas estruturais chega a ser cansativo. É um fato, mas há outras variáveis. O Executivo sabia, desde o começo, que teria enormes dificuldades em conseguir de qualquer Congresso mudanças radicais. Logo, a alternativa seria o uso das armas possíveis e o Executivo as tem para conseguir conter e, principalmente, racionalizar suas despesas. Alguma coisa foi tentada, mas o resultado, conforme revelam os números parciais do déficit do ano passado, ficou muito aquém do necessário.
Para complicar mais as coisas, o Executivo dá a impressão de pretender enfrentar este problema com uma estratégia perigosa. O último aumento em dose dupla dos combustíveis, acompanhado da CPMF, que entra em vigor dia 25, criam potenciais dificuldades a todo o projeto. Num caso, são os estados que buscam mais recursos, taxando os combustíveis. No outro, é a tristemente famosa e longamente discutida questão de se conseguir meios para o carente setor da Saúde.
Quando União, Estados e Municípios buscam mais recursos junto ao bolso do combalido contribuinte, o reflexo no setor privado de uma economia estável (ou a caminho da estabilidade) é imediato. As vendas caem, a produção também e as consequências poderão ser graves dependendo do grau da pancada. Aumentar impostos não é uma boa solução, embora possa reduzir temporariamente o déficit. E há o agravante de que essa solução mostra apenas que as autoridades não têm imaginação para resolver seus problemas de caixa. Não é exatamente deste tipo de certeza que os brasileiros precisam neste momento, exatamente quando se deveria estar iniciando a grande arrancada para o emprego, a queda final da inflação e a retomada do crescimento econômico auto-sustentado.
O povo brasileiro amadureceu nos últimos anos, não havendo qualquer dúvida sobre sua decisiva participação para o sucesso do Plano Real. E é este amadurecimento que oferece, hoje, as melhores expectativas para o projeto de estabilização. Só falta, como sempre, que o setor público - Governo, Congresso, Estados e Municípios - façam a sua parte, sem voltar às velhas táticas de subir impostos para passar por cima de suas próprias falhas.





