É desalentador observar que a cada vez que sem tem motivo para elogiar o Legislativo, surgem fatos que mudam diametralmente todo o quadro. Na semana passada, a Câmara Federal apreciou e aprovou a reforma administrativa, em segundo turno, anunciando para esta semana o encerramento da tramitação da matéria, com a votação dos destaques. Provocou até surpresa o fato de o Senado realizar sessão em pleno sábado, algo, se não inédito, raríssimo na história do Legislativo brasileiro, ao menos desde a mudança para Brasília. Com isso, o Congresso deu provas de vontade e disposição, surgindo a esperança de que, após três anos de adiamentos e protelações, o que não se fez em todo esse tempo poderia ser concluído nos poucos dias que faltam para terminar o ano.
Mas toda essa empolgação pode acabar hoje mesmo, se um grupo de deputados conseguir o que só pode ser classificado como um deboche e um escárnio à Nação. O grupo, do Partido Liberal, conseguiu as assinaturas necessárias para apresentar um destaque para votação em separado que torna letra morta, para o bolso dos parlamentares, o teto de R$ 12.720,00 aprovado na emenda da reforma administrativa para os salários do serviço público federal.
O teto aprovado, mensal, já está anos luz à frente dos ganhos anuais da maioria dos trabalhadores brasileiros. Enquanto o salário mínimo está na casa dos 12O reais mensais, o teto em discussão é de 12 mil reais, cem vezes mais. No entanto, há deputados que acham pouco e querem excluir do limite as ajudas de custo e outras coisas - se der, o jeton também. Não há dúvida sobre a importância do trabalho dos representantes do povo. Se há, ela é dos próprios representantes com relação a suas responsabilidades perante a Nação. Pois muitos encaram essa atividade como uma boquinha para arrumar suas vidas. Não se discute que um parlamentar deve ganhar o suficiente para manter padrão de vida compatível com suas obrigações. Também não se discute que o salário mínimo brasileiro é uma vergonha. Mas o teto de 100 vezes o mínimo parece mais que confortável.
No entanto, a manutenção de qualquer tipo de privilégio adquirido é uma luta sagrada. E são estas aberrações que tornam a população descrente e a credibilidade dos políticos menor que a do traidor bíblico. A desfaçatez dos autores da proposta e seus apoiadores é tanta que nem lhes ocorre que o funcionalismo federal está há três anos sem reajuste salarial e ainda passa o risco de ser mandado para o olho da rua. Ali mesmo em Brasília, onde será votado o destaque, que por si só já é uma vergonha para a Nação.
Este e outros abusos - como o de nomear parentes para cargos de confiança, a fim de engordar o salário da família - não são irremovíveis. Temos eleições no ano que vem. Se os eleitores, em vez de capitularem pelo desânimo, gravarem os nomes desses políticos e os varrerem do cenário nacional, estarão abrindo melhores perspectivas para o País. Os bons não podem pagar pelos maus. Muitos políticos sérios, espera-se que a grande maioria, vão votar contra o destaque porque não admitirão ser classificados pela opinião pública de quadrilheiros legisladores em causa própria.
A aprovação disto que está aí é o mesmo que um crime de colarinho branco coletivo, para o qual, do lado de cá, há lei especial e cadeia sem fiança. Os bons representantes não podem permitir a consumação de mais esta vergonha.

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