Editorial
Como era de se esperar, a posse dos novos prefeitos, pelo menos em algumas das capitais brasileiras, acabou se convertendo em lançamento precoce da sucessão, tanto estadual quanto federal. Os ex-prefeitos do Recife e Belo Horizonte declararam, ao entregar o cargo, a disposição de disputar os respectivos governos estaduais. O ex-prefeito de Curitiba também deixou clara a intenção de se lançar à sucessão do governador Jaime Lerner. Em Porto Alegre e São Paulo, os ex-prefeitos se anunciaram candidatos à sucessão presidencial.
O fato em si não chega a surpreender e se repete a cada nova posse. A novidade é que isto se dá enquanto tramita no Congresso Nacional a emenda da reeleição para os Executivos estaduais e federal, e para cuja votação o governo pede urgência. A pressa do presidente Fernando Henrique Cardoso, que queria ver a emenda aprovada já no ano passado, se justifica. Ele sabia que agora, com postulantes mais fortes à Presidência da República, a situação poderia se complicar.
A opinião popular levantada em recente pesquisa nacional é muito favorável ao presidente Fernando Henrique Cardoso no caso de ser aprovada a reeleição. Daí, em parte, a insistência do presidente para que o Congresso vote de uma vez a respectiva emenda. Mas a urgência também se explica pelo resultado das eleições municipais, desfavorável para o partido do governo nas capitais. Nessas cidades, os grandes vencedores foram partidos coligados ao PSDB ou que estão na oposição ao governo. E para evitar que a concorrência cresça, melhor que se vote a emenda já.
Agora, além do embalo natural dos partidos vencedores das eleições municipais, a corrida para a Presidência da República recebe concorrentes inesperados que vêm se somar aos mais graúdos já lançados. O quadro cresce e a pressão contra a reeleição tende a ser naturalmente maior. Os potenciais candidatos a governador também são obstáculos adicionais à aprovação da emenda, pelo menos no que se refere à reeleição de governador. E aí aparece outro complicador, pois dificilmente o Congresso poderia aprovar a reeleição para presidente e deixar de fora governadores e prefeitos.
O risco de uma embolada, portanto, era grande e por isso o presidente queria uma definição rápida. Não teve e como resolveu colocar este tema à frente de todos os outros, ficam em xeque outra vez as reformas estruturais. O presidente reafirmou na passagem do ano que não vai trocar a aprovação da reeleição pelas outras reformas. Entretanto, na medida em que perde terreno, o governo fica com sua base política ameaçada, pondo em risco os demais projetos políticos do Executivo.
O que poderia mudar radicalmente o quadro e, com isso, assegurar uma chance para as reformas essenciais seria o recuo do governo. No atual momento, o presidente não pode se dar ao luxo de perder apoios e se o preço for a desistência da possibilidade de reeleição, talvez isto ainda saia menos oneroso do que a insistência. Não seria incoerente. Recorde-se que, quando o Congresso revisor analisou a questão da reeleição, na mesma época em que o mandato presidencial foi reduzido de cinco para quatro anos, o PSDB, partido do presidente, foi francamente contra.





