Editorial
No jogo de acertos e erros de que é feita a história da humanidade, a idéia de fazer coincidir a posse dos eleitos com o primeiro dia do ano representa, sem dúvida, uma evolução. No passado não muito distante, muitos governadores, prefeitos e até presidentes enfrentavam uma situação bastante adversa ao assumir no final do primeiro trimestre do ano, encontrando orçamentos estourados, apesar de recém-iniciados. As leis eram dribladas de todas as formas e para os eleitos restava a dura tarefa de tentar reequilibrar a situação, perdendo nisto quase todo o primeiro ano de mandato. Assim, a mudança da data da posse cumpre a missão de viabilizar o primeiro ano de mandato dos novos governantes.
Hoje, novos prefeitos e novos vereadores assumem seus cargos em todo o País, com condições de iniciar imediatamente as ações para as quais foram eleitos. Isto é bom porque as soluções dos problemas urgem e a população quer competência com rapidez. O único complicador - e este é o desafio inicial dos novos prefeitos - é que, embora os orçamentos estejam novinhos em folha, os problemas administrativos são antigos e difíceis de resolver. As heranças que recebem são muito pesadas, há dívidas em atraso, salários também e obras por fazer. Até mesmo os novos municípios nascem com problemas porque o ato político da emancipação, quase sempre, não levou em conta a situação econômica, de tal modo que já os primeiros passos da nova unidade serão especialmente penosos.
Nada, porém, tira deste primeiro dia do ano e véspera do primeiro dia de trabalho dos novos prefeitos o clima de esperança vindo das urnas e próprio desta época. A experiência não autoriza ninguém a comemorar o novo apenas por ser novo e a descartar o antigo por ser velho. Mas convida a todos a incentivar o que o novo tem de melhor e a aprender com o antigo o que se deve e o que não se pode fazer. A esperança, portanto, é que os erros sejam menores e os acertos, maiores. Não será difícil, se o trabalho for honesto, constante, criterioso.
O maior desafio para os novos governantes é o de não permitir que a esperança feneça em pouco tempo. Mas no quadro atual do País as perspectivas são mais positivas do que há quatro anos. Os brasileiros aprenderam muito nestes últimos anos de lutas e de sucesso na batalha da estabilização. O povo está muito mais amadurecido nos tempos que correm, não espera transformações milagrosas, sabe que as conquistas e vitórias são obtidas com muita luta. Isto constitui por si uma rara oportunidade para os novos prefeitos. Caso deixem evidente desde o começo a determinação para o trabalho, motivando o povo a participar desta grande tarefa, terão todas as condições para enfrentar os primeiros obstáculos e realizar o que as urnas ungiram.
Unem-se, neste momento, os bons presságios do ano novo e das vitórias dos últimos anos sobre o caos inflacionário. Vivemos, hoje, uma crise de ajustes e de crescimento, em vez de uma crise de governabilidade e estagnação. As dificuldades da maioria das prefeituras podem ser vencidas, se souberem fazer os ajustes necessários aos novos tempos. A população confia. Este é talvez o resultado mais marcante destes quase três anos de nova realidade econômica: o brasileiro cresceu e a consciência da cidadania devolveu-lhe a confiança e auto-estima.
Sem estas duas virtudes nada se pode fazer, seja na prefeitura, no governo do Estado o no governo da Nação. Há muito tempo não se tem no Brasil uma conjunção tão perfeita e que constitui, sem dúvida, o maior aval para a confiança que o novo ano desperta.





