O anúncio do Ministério da Fazenda de que não vai desvalorizar o real para reduzir o déficit comercial é uma importante definição para a economia nacional. No passado, quando se cogitava da necessidade de melhorar as condições de competitividade do produto brasileiro no mercado externo, uma das primeiras alternativas (muitas vezes a única) era a desvalorização da moeda. Era fácil, ainda mais porque o velho cruzeiro estava muito longe de ser uma moeda, solapado diariamente por uma inflação enfurecida e descontrolada. A tal ponto que a moeda era trocada de tempos em tempos, ao perder totalmente o valor.
Hoje, os tempos e a moeda são diferentes. Temos uma moeda mais forte que o dólar se comparada, por exemplo, com a cesta básica de alimentos do Dieese, ou com os preços dos automóveis. Se as exportações não crescem como o desejado, pode-se pensar em outras saídas que não exclusivamente a desvalorização da moeda. Hoje não se deve mais pensar em termos de déficit ou superávit. Esta é uma visão do passado e maniqueísta. Antes, o superávit era visto como um bem e o déficit como um mal. No mundo comercial aberto, o que importa é a participação global no mercado, como comprador e como vendedor.
No passado, o Brasil vendia 30 bilhões de dólares e comprava 15 bilhões. Teve superávits de 15 e até de 18 bilhões de dólares ao ano. Gastava cerca de 10 a 12 bilhões com o serviço da dívida e pagamentos ao exterior e o resto internava no País, gerando uma inflação enorme. Somadas as duas pontas o Brasil movimentava cerca de 45 bilhões de dólares ao ano. Hoje, a situação é muito mais favorável: a corrente de comércio supera os 90 bilhões de dólares anuais, as reservas em moeda estrangeira são de 60 bilhões, contra 10 bilhões no passado, e a inflação é baixa. Não há superávit comercial, mas existem alternativas - uma já em curso - e fôlego para pensar nelas antes de adotar medidas radicais.
Mas há um aspecto importante para o qual o Brasil não está olhando. No mundo comercial globalizado é preciso que se compre e se venda com qualidade. Este é um diferencial de grande importância. Se estamos comprando o que não precisamos, então estamos gastando mal. A presença brasileira no mercado mundial, embora pequena, dobrou e os números oficiais revelam que foi grande a presença, entre os importados, de produtos supérfluos. O déficit comercial poderia ser 1 bilhão de dólares menor - será de 5 bilhões - se cuidássemos de comprar somente o que precisamos e não o que já temos de sobra.
Isto não tem nada a ver com protecionismo, apenas com inteligência. E em alguns casos é preciso mesmo proteger o sistema produtivo interno, coisa que todos os países fazem e o Brasil não tem feito. Isto também se chama inteligência, e não tem nada a ver com isolacionismo.
Curiosamente, o Brasil foi protecionista demais no passado, a ponto de ficar fora do tempo e quase que do espaço em termos comerciais. Hoje, caímos no oposto: não estamos sendo nada protecionistas e estamos gerando empregos na China, na Coréia, no Japão, enquanto não temos vaga dentro de nossas fronteiras. O velho protecionismo - concluímos, felizmente, há alguns anos á- beneficiava a poucos. Mas a exposição da economia não pode ser feita sem critérios. Nisto, estamos errando e o governo até já passou por vexames por causa disso, na questão das alíquotas de importação de automóveis. O mercado mundial é uma estrada de mão dupla, mas é preciso fazer as coisas certas para evitar distorções e prejuízos desnecessários.
O Brasil já foi inteligente para vender muito no passado. Precisa agora ser inteligente para comprar. Há amplas possibilidades de se ampliar as exportações. E algumas medidas já adotadas, como a isenção do ICMS para a exportação de produtos primários e semi-elaborados, a criação de portos secos e novos financiamentos à exportação, vão produzir resultados ao longo de 97. Estas medidas e uma política de estímulo à produção abrirão novos caminhos, sem que se precise apelar para a desvalorização do real. E se as compras forem feitas com critério e controle, vai ficar mais fácil ter superávits novamente.

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