No passado, quando a economia brasileira vivia em uma situação anárquica, as medidas tradicionais para tentar deter a inflação acelerada, que com o tempo virou hiperinflação, nunca davam certo. Chegava-se a dizer, com visível exagero, que no Brasil as leis econômicas não funcionavam. Hoje, com a estabilidade criada pelo Plano Real, as coisas são diferentes. Finalmente as receitas dos manuais de economia surtem efeito. Vimos isto por ocasião da crise do México, em 1995, quando o Governo baixou medidas para desacelerar a atividade econômica. Na década passada, o Governo cansou de aumentar os juros e os preços nem davam bola. Agora, espera-se que o receituário ortodoxo continue funcionando e que as 51 medidas baixadas ontem salvem o real do seu mais sério desafio desde que foi instituída a URV, em março de 1994.
Há de tudo um pouco no pacote fiscal: cortes no Orçamento, aumento de impostos e tarifas, redução de subsídios, estímulos à exportação, demissões etc, uma verdadeira miscelânea que vários economistas ouvidos ontem elogiaram e esperavam que fosse até mais forte.
Por conta disto, alguns acham que virão outras medidas mais adiante. A verdade é que o Brasil ainda está frágil. Persistem fatores altamente negativos, entre os quais o mais sério é o déficit público, que deve ter uma redução significativa com o pacote, mas que continua sem solução duradoura se não forem feitas as reformas estruturais. Haverá um crescimento da poupança interna, mas a dependência em relação ao capital externo ainda será grande. O País estará mais protegido de ataques especulativos, mas não estará imune a eles.
Está evidente nas medidas anunciadas a preocupação em manter a diretriz básica do plano de estabilização: a equipe econômica vai fundo para manter a inflação sob controle e perto de zero. Não precisaria tanto, se contasse com as reformas, mas sem elas não há outro jeito se não abrir a caixa de ferramentas. Quando as reformas vierem a situação será, sem dúvida, melhor e muitas medidas poderão ser revogadas.
Algumas das medidas podem provocar retração. Aumentos de impostos, como IPI e IR, tendem a desacelerar as vendas, a produção e o consumo. Pode haver também um pouco de inflação, pelo lado dos combustíveis, que custarão mais caro. Mas o aumento de 5% nos preços decorre da retirada de subsídios. Assim, compensa-se a pressão de um lado pela redução nas despesas oficiais do outro. Por isso, o reflexo na economia como um todo deve ser de curta duração.
As medidas foram as possíveis e imediatas. A equipe econômica está devendo, para o futuro, a desoneração da produção e do emprego, se quisermos ser um país competitivo com as economias emergentes. Naturalmente, a reforma tributária e a reforma da legislação trabalhista não são coisas fáceis e rápidas. Mas alguma coisa poderia ser feita já e não foi.
Alguns segmentos da população vão pagar a conta, notadamente a classe média, que vai recolher mais imposto de renda nos próximos dois anos. Mas a preocupação com o estímulo ao setor produtivo, tanto na questão das exportações como no declarado apoio às pequenas e médias empresas, constitui uma garantia de que o crescimento econômico não foi esquecido e isto é animador.

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