A repetição sistemática do horário de verão e dos apelos para a redução do consumo de energia têm produzido atitudes contraditórias na população: alguns sabem que o problema da escassez de energia é sério e fazem economia o tempo todo - inclusive porque as tarifas são caras -, e outros pensam que a economia gerada pelo horário de verão deve estar resolvendo todos os nossos problemas e não temos que nos preocupar com isso. Mas, se é fato que o horário de verão produz uma redução no consumo de energia elétrica, isto decorre mais de fatores quase aleatórios do que de uma efetiva disposição coletiva de reduzir o consumo. A questão da escassez de energia continua séria e pode ter consequências graves se não contenção e novos investimentos.
A queda de dez torres das linhas de transmissão de Itaipu torna a ameaça de blecautes diários e regulares uma possibilidade real. Será por pouco tempo, até que se consertem as torres derrubadas pelo vendaval, mas o fato deve merecer toda atenção por parte dos usuários, residenciais, industriais ou comerciais. Em resumo, se não houver contenção no consumo durante o período dos consertos, podem ocorrer cortes no fornecimento de energia elétrica em vários pontos do País. Assim, o vendaval tem a aparência de uma antecipação do que pode ocorrer em todo o País, assim que a economia voltar a crescer a taxas maiores do que 6% ao ano.
Não se trata de economizar por esporte ou por causa de uma emergência, mas de buscar uma alternativa capaz de evitar os prejuízos maiores de um blecaute geral. Pois o que mais queremos hoje é crescer, para termos empregos, salários, vendas e empresas saudáveis, mas fazemos de conta de que temos energia infinita para tocar a máquina da economia. E não é só a população que tem essa ilusão, mas as próprias autoridades que advertem não tomam as iniciativas necessárias. A última, aliás, foi a criação do horário de verão na década passada.
A emergência causada pelo vendaval remete à necessidade de uma revisão dos conceitos individuais sobre o uso de coisas que parecem tão simples, como a energia elétrica. Desde o primeiro choque do petróleo, nos anos 70, a energia virou, tardiamente, um bem escasso e finito. Houve uma reviravolta mundial que deixou clara a dependência energética de todos os países. Mas pouco se fez para substituir o petróleo, fora o programa do álcool surgido no Brasil. O mundo rico continuou queimando combustíveis fósseis como se nada tivesse acontecido. E o programa do álcool, que num país como o Brasil deveria ser uma prioridade, foi deixado para as cachaças.
Se os países ricos não se importam, os pobres ou em crescimento deveriam ser mais espertos. No próximo século, antes do seu primeiro quarto, nenhum país do mundo será independente se não tiver resolvido seu problema energético. As reservas mundiais de petróleo se esgotam rapidamente e em 30 anos estarão no fim. Neste mesmo período o potencial de energia hídrica do mundo ocidental estará quase totalmente explorado. Só a China terá ainda muito que fazer nesta área, se até lá não tiver construído megausinas como Assuã e Itaipu.
Cada país deve estar preparado para ter controle sobre as fontes energéticas de que vai necessitar. Depender da energia externa, de qualquer natureza, colocará os países em desvantagem. Diante disto, economizar é pouco, quase nada, mas indispensável para viabilizar as economias nacionais enquanto os governos implantam programas e políticas para garantir o futuro.
O Brasil tem alternado decisões a respeito, às vezes trabalhando para aproveitar melhor seu potencial, outras vezes abandonando projetos que podem ser vitais para o futuro. A ameaça concreta que surge agora não deve ser vista somente como uma emergência, mas como oportunidade de nos prepararmos melhor para um futuro de escassez que exigirá planejamento, criatividade e esforço.

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