O anúncio de novo reajuste nos preços dos combustíveis, em vigor a partir de primeiro de janeiro, é uma verdadeira ducha fria nas comemorações dos excelentes resultados obtidos este ano no combate à inflação. É a primeira vez nos últimos 39 anos de história brasileira que a inflação anual fica abaixo de 10%. A justificativa do aumento, decorrente da mudança na base de cáculo do ICMS, não muda a situação em nada. O que prevalece é o fato de que logo 15 dias após um aumento, vem outro.
Isto, somado à entrada em vigor, também em janeiro, da CPMF, sinaliza um aumento da inflação no primeiro mês do ano, com reflexos ainda fortes no segundo e sobras no terceiro. O fato é preocupante porque a inflação de 1996 deveu-se em grande parte à comedida política de reajustes de tarifas do Governo federal. De repente, no último mês do ano, o que se vê é um tarifaço nos combustíveis, com consequências inevitáveis em outros preços.
O Governo, que ainda não se adequou às exigências da estabilização, é conivente com seus déficits e ainda não fez nada para obter as reformas fundamentais à estabilidade econômica, surge neste raiar de 1997 como o pior adversário de seu próprio programa.
As autoridades econômicas previam que a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, o tal imposto do cheque, iria funcionar como um tipo de freio na economia, tornando até desnecessárias outras medidas para conter o consumo e evitar um aquecimento perigoso para a estabilização. Agora, o fator de contenção muda de sinal, pois virá associado com outro de elevação de custos. Isto num momento em que todos os esforços deveriam estar voltados para consolidar a tendência de queda da inflação.
As perspectivas de inflação na casa dos 5% no próximo ano ainda não estão invalidadas, mas é certo que o choque nos preços dos combustíveis produz, juntamente com a CPMF, um complicador para a economia e traz mais dificuldades. Conforme antecipam os técnicos do Governo, combustíveis mais caros e CPMF representam aumento na arrecadação oficial e uma natural redução dos recursos em circulação. É um enxugamento indireto do meio circulante, com consequências sobre os investimentos produtivos. Isto é, além dos preços maiores, pode haver também uma queda na oferta de empregos.
O consumidor, que vai ter o mesmo dinheiro nos próximos meses mas pagará mais por tudo, será quase que forçado a fazer o que o presidente Fernando Henrique Cardoso sugeriu: economizar. Não será, porém, uma economia saudável, capaz de gerar poupança individual. O que acontecerá é que o consumidor, tendo de pagar mais e sem perspectivas de aumento, vai reduzir o consumo. E continuará a ser a parte mais sacrificada no esquema para levar mais dinheiro aos cofres dos estados, com os combustíveis, e da Saúde, com a CPMF.
É um fardo a mais colocado nas costas da população, num ano que será decisivo para o sucesso do plano de estabilização. Não constitui, de modo algum, uma forma feliz de começar 97. Entretanto, há esperanças. Principalmente se o Governo se dedicar ao controle de seu déficit e à aprovação das reformas estruturais.

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