Editorial
O Brasil tem hoje 4,5 milhões de desempregados, número que corresponde a 5,8% da força de trabalho do País. Se isto é um número grande, médio ou pequeno, é o que menos importa quando se sabe que dois terços desse total vêm do campo, informa o Departamento de Planejamento do Ministério da Agricultura. O setor agrícola é o maior empregador do País, mas não havia a menor necessidade de ser o maior desempregador. Isto porque, se as autoridades tivessem cuidado melhor da agricultura desde o último ano do governo Sarney, em 1989, quando começou a pior crise agrícola do País, não teríamos tantos desempregados como hoje, mesmo com a desaceleração da economia nos últimos dois anos.
A agricultura responde por 26% dos postos de trabalho em todo o País, diz o estudo do Ministério, assinado pelo diretor do Departamento de Planejamento, Antonio Lício. Bem atrás vem o setor de prestação de serviços, com 19,1%, e mais atrás ainda a indústria, com 12,2%. Só por aí se pode ver como seria fácil evitar, mediante políticas de fixação do homem à terra, que as crises nacionais ou internacionais produzissem tanto estrago na vida dos brasileiros. Teríamos hoje somente 1,5 milhão de desempregados, o que não é pouco, mas é muito menor, relativamente, do que em países que estão passando por fortes ajustes fiscais.
E por que tivemos tanto desemprego no campo, nos últimos anos? Porque deixamos de cultivar cerca de 8 milhões de hectares de terras, somente entre 1989 e 1993. Nossos problemas começaram, portanto, com a hiperinflação do fim do governo Sarney e se prolongaram com o Plano Collor e as indefinições que se seguiram, notadamente quanto à política agrícola. Quanto maior a indefinição, maior a perda de terras agricultáveis nas safras seguintes.
Mas o setor é tão dinâmico e os investimentos agrícolas têm retorno tão rápido que bastou a recuperação das safras de 1994 a 1996 para serem reempregados 1 milhão de trabalhadores. No período, o desemprego rural caiu dos 3 milhões para 2 milhões de pessoas. Como num abrir e fechar de olhos. E isto apenas porque o produtor resolveu arriscar por sua própria conta, apesar dos altos juros, da competição externa, da legislação trabalhista adversa.
Isto significa, claramente, que se os governos ajudassem, ou pelo menos não atrapalhassem, em um ano ou dois poderíamos ter uma taxa de desemprego nacional de fazer inveja em qualquer país do mundo, mesmo os ricos. E com um pouco mais de esforço e criatividade, poderíamos simplesmente zerar o desemprego, atraindo para o campo gente que vegeta na periferia das grandes cidades. Em três ou quatro anos chegaríamos ao pleno emprego, existente hoje, por exemplo, na economia norte-americana. Em cinco anos, tempo mais que suficiente para treinar os novos trabalhadores e reciclar os antigos, a produção agrícola cresceria a índices inéditos em nossa História.
Mais ainda: o desenvolvimento agrícola faria decolar a indústria, pois o campo responde por setores tão importantes quanto vestuário, mobiliário, madeira, laticínios, óleos, produção de álcool, sucos etc. Somente um acréscimo de 2 milhões de hectares por ano em lavouras e de 100 mil hectares por ano em fruticultura, diz o estudo, assegurariam pelo menos 1 milhão de empregos diretos e indiretos. A custo muito menor do que na indústria. E tudo seria ainda mais fácil se a legislação trabalhista fosse moderna e a atividade produtiva não fosse tão massacrada por impostos punitivos.
Só não se faz porque nossos governos têm má vontade com a agricultura, não sabem eleger prioridades e têm uma capacidade incomum para não ver o óbvio.





