Editorial
O maior desafio que a sociedade humana organizada enfrenta neste final de século é, sem dúvida, o enorme potencial financeiro e - o termo cabe - bélico dos chamados cartéis da droga. O montante movimentado pelos traficantes supera o orçamento de muitos países do mundo. A falta de limites éticos e morais, que impera no meio do crime organizado, torna seu poderio ainda maior. A corrupção é uma arma usada com facilidade e grande sucesso, devido ao volume de dinheiro disponível para comprar eventuais opositores. A participação dos cartéis na eleição de presidentes, em países dominados pela droga, é cada vez mais forte. Os traficantes não titubeiam em usar meios violentos, da chantagem ao assassinato.
Boa parte dos governos já percebeu a situação e tenta, de todos os modos, aparelhar-se para enfrentar o desafio. O crime organizado em nível mundial, sem fronteiras e sem limites, exige para seu combate uma estratégia nova, diferente, ousada e corajosa. Os convênios entre países - e parte da visita do presidente norte-americano a Brasil e Argentina foi dedicada à questão - são um passo importante. Entretanto, se ficar só nisto o procedimento é tímido, pois o crime organizado tem hoje um contorno verdadeiramente multinacional, exigindo uma ação global, conjunta e coletiva. Inclusive no aspecto legal, é importante que os países do mundo adotem legislação comum para evitar artifícios que possam salvar os traficantes.
Os grandes paraísos do dinheiro roubado deveriam também participar deste tipo de ação, sem o que um flanco importante fica descoberto. Sem dúvida, haverá resistências. Muitos paraísos fiscais surgiram para dar guarda ao dinheiro do crime organizado, e será preciso contar com uma férrea vontade política por parte de seus governantes e com o decidido apoio da sociedade para pôr fim a isto. É indispensável acabar com as lavanderias de dinheiro criminosamente adquirido. Neste, como em outros pontos fundamentais do combate ao tráfico, a pressão internacional pode dar bons resultados, desde que haja, de fato, vontade comum. Se o mundo civilizado não enfrentar com toda sua disposição o tráfico e outras formas do crime organizado, ele se tornará tão forte que poderá destruir até mesmo as mais sólidas instituições políticas.
Além das medidas adotadas entre países, é preciso dar combate sem tréguas ao crime dentro de cada fronteira. Reunidos em Foz do Iguaçu, policiais dos órgãos de repressão ao tráfico nos três estados do Sul do País e Mato Grosso do Sul elaboraram documento contra projeto de lei em tramitação no Senado que pretende excluir os viciados da prisão. Segundo os responsáveis pelo combate à droga, isto dificultará seu trabalho porque o usuário é um meio de se chegar ao traficante. Ademais, muitos traficantes apanhados em flagrante alegam ser viciados para fugir à prisão.
É, como tantas, uma questão muito delicada. O viciado, de modo geral, é também uma vítima. E, conforme conceitos mais modernos, assim como o alcoólatra, é um doente. Prender o usuário seguramente não resolve o problema das drogas. Mas abrir demais o leque legal pode dificultar a ação policial interna. A questão deve merecer maior análise, inclusive com assessoria oficial, para que não se cometam equívocos.





