Entre nações não existe amizade, mas interesses. Pode parecer duro, mas é assim desde que o mundo é mundo. Há guerras - militares ou econômicas - somente quando os interesses se desequilibram, pendendo mais para um lado do que para o outro, ou um dos países adquire tal poder que os interesses do outro não contam mais. Obviamente, pode existir amizade entre os povos desses países, mas os interesses nacionais são a base do relacionamento diplomático e comercial.
Brasil e Estados Unidos sempre tiveram uma relação estável, embora muito desigual neste século. Quando os inconfidentes mineiros quiseram derrubar a Coroa, procuraram apoio entre os governantes da nova nação que havia surgido no Hemisfério Norte do continente. E quando, afinal, D. Pedro I proclamou a Independência no século passado, os Estados Unidos foram os primeiros a reconhecê-la. Neste século, o Brasil alinhou-se com os Estados Unidos na II Guerra Mundial, dando apoio logístico e humano à luta dos Aliados. Nenhum país da América do Sul agiu assim.
Não houve contrapartida americana à altura, embora por uns poucos anos - enquanto não era um país exportador - o Brasil fosse considerado cliente preferencial nas relações de comércio com os EUA. Quando os produtos brasileiros passaram a entrar fortemente no mercado norte-americano, impuseram-se restrições e barreiras que inexistem para outros países, mesmo latino-americanos.
Amizade e favores de outros tempos não contam. A visita que o presidente Bill Clinton faz ao Brasil nada tem a ver com o passado, as lutas comuns. Neste momento, mais do que em qualquer outra época, o que move as nações no mundo sem fronteiras é o interesse. E não interessa aos Estados Unidos que o Brasil se converta num ‘tigre’ sul-americano, à frente de um mercado que em poucas décadas pode ser tão forte quanto o da Comunidade Européia.
Líder da maior potência mundial, Bill Clinton demorou a voltar os olhos para o próprio continente. Só agora, em seu segundo mandato e sob os ventos da unificação comercial do Cone Sul, o presidente dos Estados Unidos vem visitar os ‘tradicionais aliados do continente’. E o faz porque é fundamental, neste momento, fortalecer a presença norte-americana junto ao mercado que ameaça se separar. O Mercosul é uma união ainda incipiente em face de tantos outros blocos, mas promissora e por isso desperta tanto interesse, a favor e contra. A visita de Clinton a Venezuela, Brasil e Argentina é, justamente, para garantir a continuidade dos interesses tradicionais de seu país no continente.
Não há mal algum, aliás, na intenção comercial do visitante, se ele tiver idéia melhor do que a do Mercosul para modernizar e fortalecer a economia regional ou mesmo de toda América do Sul. O importante é que haja respeito entre as partes, o que é fundamental no comércio e necessário na relação entre as nações. Infelizmente, o prólogo desta visita não foi dos mais animadores, pelo excesso de exigências absurdas em relação à segurança e observações inoportunas sobre assuntos internos do Brasil. Todavia, ao que parece, os panos quentes já foram postos e é de esperar que o visitante tenha o tratamento que os brasileiros sabem dar a todos.
Negócios são negócios, como bem dizem os americanos. O Brasil, como todo o Mercosul, tem interesse em negociar com um vizinho tão rico e poderoso. O que se deve fazer, agora, é ouvir o que o visitante tem a dizer, saber o que quer e o que pode oferecer. Tudo em clima elevado e sem preconceitos. Bill Clinton representa hoje o mundo novo e busca mercados e negócios. Pode ser um grande parceiro para o Brasil e o Mercosul.

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