Editorial
Há um ano, nesta época, o mundo vivia um grande momento. Havia uma fundada esperança de melhor entendimento entre os homens, em toda parte: o conflito da Bósnia se encaminhava para uma solução, a conturbada África parecia atravessar um período menos conturbado, o Oriente Médio caminhava pelas trilhas da paz, Belém recebia peregrinos em clima de harmonia. O Natal de 96 dava a impressão de que às vésperas do terceiro milênio os homens haviam começado a aprender alguma coisa com seus erros milenares. No Brasil, o balanço também era positivo, com moeda estável e perspectivas positivas para o futuro.
Hoje, quando o mundo cristão celebra mais um Natal, o panorama é, infelizmente, menos alegre. No Zaire, e em toda a região dos lagos africanos, centenas de milhares de pessoas são levadas pelo ódio para a doença e a morte, sem esperança, chacinadas em nome dos mais baixos instintos. Na terra em que Jesus nasceu, a discórdia parece voltar a imperar, apesar de todos os anunciados esforços para a retomada das negociações de paz. No Brasil, excepcionais resultados na luta contra a inflação convivem (mal) com a falta de soluções para os problemas estruturais, que continuam à espera de reformas inadiáveis. E, para completar, 140 pessoas passam a noite de Natal presos na embaixada do Japão em Lima, reféns de um grupo guerrilheiro que insiste em seguir na contramão da História, restaurando aquele terrível postulado do terror segundo o qual ninguém é inocente.
E, no entanto, é Natal. A data mais expressiva da cristandade evoca o nascimento do Messias e, mais que isto, restaura a esperança. Natal é justamente isto, a renovação do amor de Deus pela sociedade humana, a lembrança da doação maior do Criador que se preocupa perenemente com suas criaturas, a quem chama, a partir de Jesus - conforme o entendimento cristão - de filhos. E é tão forte a presença divina nesta data que mesmo quem não é cristão sente um clima diferente por toda a parte.
Um ditado popular diz que a esperança é a última que morre. Esta é a verdadeira dimensão da importância de que o ser humano tenha, ainda que nas mais duras condições, a esperança de alguma coisa melhor. Pode-se até dizer que sem esperança já nem há vida. O Natal é, sem dúvida, o grande restaurador disto, a oportunidade para que se repense a vida e se perceba que mesmo nas mais duras circunstâncias é possível vencer. Jesus, com seu nascimento, dá a maior prova disto. Não havia lugar para a Mãe que esperava um Filho. O Casal não tinha onde ficar. Jesus nasceu no lugar mais improvável, na maior pobreza. E aquela Família deu a prova da dignidade, transformando a manjedoura no ponto de partida para a Salvação.
Este é o espírito do Natal, a lição que é repetida a cada ano para os homens, em geral. Se hoje, no balanço que se faz da situação do mundo, há tantas lágrimas, tanta dor, tanta incompreensão, ainda assim é possível ter esperança porque a vida se renova, porque uma Criança nasceu em Belém e porque, por toda parte, mesmo na dor dos refugiados zairenses, as crianças continuam nascendo e a vida continua a se impor.
Se hoje os sinos de Natal encontram ainda muita miséria e incompreensão, isto não constitui senão outro desafio. Pois enquanto o homem continuar se voltando para aquela manjedoura em Belém, isto significará que a esperança permanece. Por pior que pareça a tormenta, a estrela de Belém mostra aos homens o rumo e revigora a fé.





