Editorial
A agricultura brasileira deve produzir em 1996/97 cerca de 77,557 milhões de toneladas de grãos, total um pouco inferior (1,2%) ao da primeira estimativa feita pela Conab, que era de 78,526 milhões de toneladas. O número também é um pouco menor (3,1%) do que os 80 milhões de toneladas obtidos na safra 1994-95 e que eram a meta esperada pelo governo para 96-97. Neste levantamento, a Conab calcula que a área plantada na região Centro-Sul manteve-se praticamente igual à da safra 1995/96 (redução de apenas 47 mil hectares). Só a área plantada de soja aumentou, de 10,124 milhões de hectares para 10,669 milhões (5,3%). Em todas as outras culturas houve redução da área: 32,5% na de algodão, 10,3% na de arroz, 3,9% na de feijão (primeira safra) e 1,5% na de milho (primeira safra).
O ministro da Agricultura, Arlindo Porto, acredita que estes números são conservadores e que o resultado final pode ser melhor, confiando até na possibilidade de se atingir o recorde da safra 94/95. Entretanto, se compararmos o melhor número - 80 milhões - com o que a agricultura de um país como a Índia, do Terceiro Mundo, produz, então podemos constatar, mais uma vez, que estamos muito aquém das reais possibilidades de nossa agricultura. A Índia produz cerca de 200 milhões de toneladas de grãos ao ano, coisa que para o Brasil seria possível se nas últimas três décadas - para ficar só nessas - tivesse havido mais visão, objetividade e interesse das autoridades em assegurar ao campo condições de produção e produtividade.
Para a agricultura, o calendário não é o gregoriano. Se existe, de fato, pretensão de colher frutos compensadores, é preciso que haja cuidados antecipados. Se o Brasil está colhendo hoje menos do que há duas ou três safras, se continua empacado na produção inferior a 80 milhões de toneladas, é porque muito ainda deve ser feito. Já temos um instrumento de máxima importância - o zoneamento agrícola - e há poucas semanas foi instalado o Fórum Nacional da Agricultura, para debater as condições para o futuro da atividade. O Brasil já se dispõe a voltar-se para sua vocação natural, e o que precisa fazer neste momento é consolidar esta mudança.
O trabalho é de longo prazo, mas algumas medidas podem ser tomadas de imediato. As atuais estimativas indicam que uma das melhores decisões que o governo federal, principalmente, poderia adotar para o ano que vem é a de estimular firmemente a produção. Tanto industrial como agrícola. O campo está aí, pronto: o Brasil tem uma imensa área em produção e outra, ainda maior, inexplorada. Quando ministro, o senador José Eduardo de Andrade Vieira centrou suas ações na melhoria da produtividade - para aumentar a produção sem onerar o produtor - e na elaboração do zoneamento agrícola, ponto de partida para a formulação de uma política agrícola nacional. Ambos os itens requerem planejamento cuidadoso e seus resultados virão a longo prazo, se tudo for tocado como deve ser. No entanto, há medidas de curto prazo que o governo pode e deve tomar em outras áreas - na de financiamento, especialmente - para tirar a agricultura do passo de lesma em que está há anos.
Nesta etapa da estabilização da economia, o incremento à produção pode ser excepcional como fator de sustentação do processo. O investimento no campo é um dos mais adequados modos de criar riquezas sem provocar qualquer tipo de pressão inflacionária. O que se investe na agricultura volta potencializado. Ademais, criam-se mais empregos, amplia-se a possibilidade de alimentar mais gente, abrem-se perspectivas de crescimento em leque, com efeitos sobre toda a economia.
É preciso, apenas, vontade política, disposição verdadeira para dar ao produtor condições de trabalhar. Com isso, as perspectivas serão imensas e o Brasil poderá, em pouco tempo, dar os saltos que há muito já deveria estar dando. O Brasil potência está à frente, só é preciso alavancar a produção.





