Editorial
A adoção, pelo Governo, de medidas destinadas a conter o consumo - um dos maiores temores dos meios empresariais brasileiros, em relação aos primeiros meses de 1997 - pode não se concretizar, conforme informações dadas pelo presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, e pelo diretor de Política Monetária, Francisco Lopes. Eles deram a informação durante encontro informal com jornalistas. Entretanto, esta não é a boa notícia que a iniciativa privada esperava porque o Governo entende que não vai precisar intervir no mercado por um motivo: a entrada em vigor, em janeiro, da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira.
Segundo entendem, a entrada em vigor da CPMF vai provocar uma retração natural no ritmo de crescimento econômico em 1997. Com a nova contribuição, os fundos de investimento de curto prazo vão perder atratividade, fazendo com que os recursos migrem para depósitos à vista ou a prazo, conforme previram os dois diretores do Banco Central. Esta migração, por sua vez, provocará recolhimento de moeda da economia, na medida em que os compulsórios sobre os depósitos a prazo e à vista, sobretudo, são mais altos do que os compulsório sobre os fundos, explicaram. Haverá certamente uma retração da liquidez, afirmou Gustavo Loyola. Ele disse que, dependendo do nível desta retração, é possível que o BC tenha até que atuar no sentido de compensá-la, intervindo para dar mais liquidez ao sistema financeiro.
Para o diretor de Política Monetária do Banco Central, Francisco Lopes, a aceleração de crescimento econômico ocorrida na segunda metade deste ano foi puxada pela expansão no crédito, principalmente para a população de baixa renda. Isso, segundo ele, gerou uma bolha de atividade, com o crescimento da demanda por bens, como eletrodomésticos, por exemplo. Entretanto, esta bolha não é perene. Como as pessoas têm capacidade limitada de se endividar, a tendência em 1997 é uma redução da atividade que foi estimulada por esta expansão do crédito, explicou o diretor do BC, referindo-se a mais um dos motivos que levam o governo a prever um freio natural no ritmo de crescimento econômico no próximo ano.
Os efeitos da CPMF sobre toda a econômia, a partir do começo do próximo ano, devem ser efetivamente muito sérios. Há inclusive a preocupação sobre a possibilidade de que esta nova taxação venha a pesar sobre o índice de inflação. Percebe-se que as autoridades se mostram atentas aos eventuais desdobramentos desta nova situação, tendo inclusive anunciado a disposição de intervir positivamente, caso a queda de liquidez provoque algum tipo de recessão. E é certo que o processo reclama um acompanhamento muito cauteloso, até porque a recuperação da economia e a própria quase estabilidade da moeda ainda reclamam cuidado para evitar recuos inaceitáveis neste momento.
Assim, para a iniciativa privada, persistem as preocupações sobre o que poderá acontecer, principalmente no primeiro trimestre de 97. Normalmente, há queda na demanda, o que acaba também por prejudicar o processo, com um aumento no índice do desemprego. Há assim uma série de desafios à espera já no início do ano, reclamando outra vez muita disposição e criatividade para que os efeitos negativos de um novo tributo possam ser absorvidos sem maiores traumas.
A economia brasileira tem mostrado uma vitalidade muito forte, já tendo superado maiores obstáculos desde o lançamento do programa de estabilização. Assimilar o golpe do novo tributo e manter o crescimento surgem, assim, como o grande desafio a ser enfrentado logo nos primeiros momentos do próximo ano.





