Editorial
No seu informe anual, apresentado na semana passada em Washington, a Organização Pan-Americana de Saúde informou que cinco milhões de acidentes de trabalho deixam atualmente 90 mil mortos na América Latina e no Caribe. Na presença de representantes de seus 35 países membros, a OPS assinalou que a força de trabalho da região, estimada em 250 milhões de pessoas, enfrenta em geral problemas de saúde vinculados ao trabalho. Entre os mais comuns se incluem perda de capacidade auditiva, intoxicações por metais, inseticidas e solventes orgânicos, silicose e problemas dermatológicos. Segundo a OPS, a quantificação é difícil, já que se calcula que apenas 1% dos casos de doenças ocupacionais é notificado na América Latina. O informe estabelece, no entanto, que 90.000 pessoas morrem anualmente na região devido a acidentes de trabalho. Nas últimas décadas, aumentou de forma significativa a produção e o uso de solventes, resultando numa maior exposição ocupacional e ambiental a essas matérias, em especial na indústria petroquímica, segundo a organização.
Os acidentes de trabalho representam um dos maiores problemas em praticamente todo o mundo. E, lamentavelmente, apesar dos esforços anunciados, falta ainda conscientização mais plena sobre a importância de ação prevencionista, como a que tentam (ou deveriam tentar) desenvolver as Comissões Internas de Prevenção de Acidentes de Trabalho, que pela lei precisam ser formadas em todas as empresas. De um modo geral, falta conhecimento tanto dos patrões quanto dos empregados sobre a importância da prevenção e sua imensa validade. Muitos trabalhadores, mesmo percebendo a falta de medidas de proteção, temem reclamar porque podem perder os empregos. E não poucos empresários encaram a prevenção como encargo adicional e inútil, fugindo dele.
Na realidade, uma atitude prevencionista em relação aos acidentes de trabalho representa, além do aspecto humano da questão, fator também de economia para as empresas. Os cuidados para evitar acidentes, os equipamentos necessários para tornar mais segura a atividade no trabalho, na cidade como no campo, acabam por ser muito eficientes até como medidas capazes de produzir redução de despesas, uma vez que qualquer tipo de acidente representa perda para a empresa, em termos de tempo, serviço, qualidade e trauma que provoca. A falta de cuidado, a não adequação das empresas às necessidades da segurança, a negativa em dar aos trabalhadores os equipamentos capazes de reduzir os riscos representam equívoco sob todos os pontos de vista e, de modo mais direto, uma verdadeira desvalorização do trabalhador como pessoa.
A adoção de medidas simples, o uso dos equipamentos de segurança conforme cada caso, o trabalho de conscientização dos trabalhadores nas Semanas de Prevenção de Acidentes de Trabalho ou ao longo do ano pelas CIPAs, isto representa custo bem menor do que o decorrente de qualquer tipo de acidente. Trata-se, apenas, de se insistir no sentido de conscientizar empresários e trabalhadores a respeito, os primeiros para que oferecem segurança aos seus funcionários, os segundos no sentido de reclamar caso isto falhe. Segurança no trabalho não é luxo, não é despesa, constitui isto sim fator de valorização do trabalhador e de proteção empresarial. Os cinco milhões de acidentes de trabalho registrados oficialmente pela OPS (e que devem atingir total bem maior, diante da não-notificação de muitas ocorrências), deveriam levar trabalhadores e empresários a uma nova consciência. Com menos acidentes, a eficiência será melhor, o lucro maior. Sem falar no benefício para o trabalhador e na garantia para sua família.





