Faltando um ano e 3 meses apenas para se encerrar o mandato presidencial, deputados e senadores da base aliada ao governo já admitem que as principais reformas do Estado - como a administrativa, a previdenciária e a tributária - fracassaram e só deverão ser feitas durante o mandato do próximo presidente da República, de preferência o próprio Fernando Henrique Cardoso. Todos os cálculos que eles fazem levam à conclusão de que o tempo é curto e as dificuldades são muito grandes.
O projeto de reforma da Previdência está no Senado desde o mês de junho de 1996 e, caso não haja nenhum problema, deverá ser votado pelo plenário nesta semana, em primeiro turno. Pelos cálculos mais otimistas a emenda constitucional da reforma da Previdência só deverá retornar à Câmara no final do mês ou no início de outubro. O Senado pretende mudar totalmente a proposta de reforma, o que obriga seu retorno à Câmara. Na volta à Câmara, a matéria deverá suscitar pelo menos mais um ano de debates.
Cada avanço no tempo deixa mais pessimistas os líderes dos partidos aliados ao governo quanto à possibilidade de aprovação da reforma administrativa, da reforma da Previdência e da reforma tributária. As poucas esperanças que existem de um desfecho ainda neste governo voltaram-se todas para a reforma administrativa. O relator do projeto, deputado Moreira Franco acredita que se a emenda constitucional for votada no final da primeira quinzena de outubro - conforme previsão do parlamentar - a reforma administrativa poderá ser promulgada antes da posse do novo presidente, em janeiro de 1999.
Quando se recorda que o presidente Fernando Henrique Cardoso foi consagradoramente eleito, no primeiro turno, há 3 anos, tendo como base de campanha o plano de estabilização - do qual foi o grande mentor como ministro da Economia do ex-presidente Itamar Franco - e que todo o projeto se sustentava, também, na proposta da realização das reformas estruturais que garantiriam a continuidade do programa, o sentimento que surge é de frustração. De fato, o tempo transcorrido desde a posse do atual Governo era mais que suficiente para que as reformas se concretizassem, caso houvesse um mínimo de vontade política. Infelizmente, porém, o jogo dos interesses rasteiros que parecem prevalecer na vida política acabou criando esta situação indefinida, com adiamentos sucessivos que, hoje, já remetem à conclusão do processo para o próximo século.
A previsão sobre a impossibilidade de se concluir, ainda no atual mandato do presidente (e do Congresso) é, infelizmente, realista. Nos poucos meses que faltam para terminar o ano, não haverá como esperar que se conclua o que não se realizou em quase 3 anos. E o ano que vem será ocupado pela campanha eleitoral, tanto em relação aos cargos Executivos como também para renovação do Congresso e das Assembléias Legislativas. Se num período sem eleições, como este que está para terminar, o avanço obtido foi mínimo, nem os mais otimistas podem sonhar com progressos sob a pressão do pleito de outubro de 98. Assim, como sempre tem acontecido no Brasil, as coisas vão ficar para depois.
Os partidários do Governo acreditam que isto não prejudicará o projeto de continuidade do presidente Fernando Henrique Cardoso. Ao contrário, ele continua como uma espécie de fiador do plano e os bons resultados que continuam a se registrar - apesar da não-conclusão das reformas - trabalham em seu benefício. Mas é certo que este tipo de inação, que se revela com a falta de disposição para concluir as reformas, agrava a já péssima imagem que os políticos têm junto à população e que começa a atingir o Executivo também.

mockup