É verdadeiramente inconcebível a reação de alguns ‘especialistas’ diante da inflação negativa registrada no mês passado. Ao invés de uma observação positiva diante de um evento dessa importância, os comentaristas - inclusive do provecto e insuspeito Dieese - antecipam que se trata de um fenômeno que não mostra tendência, apostando que nos próximos meses a inflação subirá. Não têm mais a coragem (ou desfaçatez ou cinismo) de anunciar explosões inflacionárias, mas insistem que deste mês até o fim do ano os números serão positivos, ainda que abaixo de 1%.
Na história econômica brasileira, taxas mensais de inflação abaixo de 1% são raríssimas. Entretanto, a estabilidade que se persegue exige que ocorrências como esta de agosto não sejam esporádicas ou inesperadas, mas resultados normais de uma situação estável. Seguramente, pela falta de medidas concretas por parte dos governantes e legisladores, chega a surpreender que a inflação persista em níveis tão baixos. Mas também isto precisa ser visto com isenção e analisado de modo correto, inclusive para que se tirem lições capazes de tornar o raríssimo resultado de agosto em algo normal para a economia brasileira.
Há lições muito importantes neste resultado. Não se trata, apenas, de uma soma de fatores - alguns inesperados - como o clima, que não foi tão frio e provocou queda de preços do vestuário. O fator mais importante foi que não houve aumentos de tarifas, impostos ou preços administrados e os reajustes - alguns muito fortes - autorizados pelo Governo há alguns meses já foram absorvidos pela economia. Unindo-se, assim, produção agrícola em bom nível relativo, clima favorável e baixa interferência do Governo nos preços públicos, além de elevado grau de consciência do consumidor, o resultado de agosto não é nenhuma surpresa. E outros iguais podem acontecer, sendo possível que se suceda um longo período de estabilidade.
O que se precisa para isto? Parece cansativo repetir, mas o que se precisa é das reformas que o Governo já quis muito, o Congresso quis pouco e hoje até o Governo parece querer menos ainda. Porque se quisesse mesmo, elas não ficariam tanto tempo entaladas no Congresso. Também seria muito útil se os reajustes de tarifas e preços públicos fossem banidos dos manuais de gerência das estatais e dos órgãos públicos que controlam atividades essenciais. Essas empresas ou atividades devem viver como qualquer mortal, fazendo economia para sobreviver e empréstimos (no exterior) para investir.
Os governantes devem parar de atrapalhar o processo de estabilização, inventando reajustes, impostos e taxas. Organismos internacionais fazem alertas sobre a economia brasileira com fulcro no déficit público, que pode ser razoavelmente contido sem as reformas estruturais. Mas, inegavelmente, isto não pode ocorrer pela via do aumento ou criação de mais impostos, que são recessivos e, no caso brasileiro, inflacionários. Isto deve ser feito pela via das reformas, para que o Estado brasileiro fique mais barato, mais leve, ágil e eficiente.
Se há alguma coisa que surpreende diante dos excepcionais resultados do combate à inflação é ver que isto ocorre apesar da omissão da cúpula dirigente, Legislativo incluso. Diante da vitalidade demonstrada pelo setor privado e pela vontade da população, há motivos para esperar que, mesmo ainda sem as reformas, será possível manter os índices baixos. Basta que se mantenha um déficit menor e sob controle. O rombo está grande (3,5% do PIB), mas mesmo o Fundo Monetário Internacional não o considera perigoso (mais de 5% do PIB). Não é pedir muito. Bastaria reduzir os juros para se ter um resultado expressivo nos gastos públicos. Os brasileiros, penhorados, agradeceriam.

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