Editorial
Neste final de inverno, sob um calor senegalesco, antecipa-se um problema que os especialistas esperavam para o próximo mês e que, inclusive, justifica a adoção do horário de verão, que começa em outubro. Estamos entrando no período em que se gasta mais energia elétrica nas casas e nas ruas das cidades, principalmente pelo uso em massa de aparelhos de ar-condicionado. Relatório divulgado por Furnas Hidrelétricas, atualizando as informações sobre o consumo de energia, mostra que há risco de blecaute nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. O aumento de consumo acima do previsto já está ocorrendo, em função do forte calor nas regiões Sul e Sudeste. Acresce que a reserva de potência do sistema nacional de energia é a mais baixa dos últimos dez anos, e as redes de transmissão e distribuição estão operando no limite.
As autoridades do setor anunciaram, juntamente com o lançamento do horário de verão deste ano, uma campanha para conscientizar a população sobre a necessidade de se reduzir o consumo nesta época. A campanha já começou, mas seu tom está aquém da gravidade do problema e do verão antecipado que estamos tendo. É preciso, desde já, porque o verão promete ser muito quente, mobilizar as populações urbanas
para se evitar o pior.
O desperdício é um vício ancestral dos brasileiros, desde os tempos em que se acreditava que aqui era a terra da fartura e por tempo indeterminado. Como tudo tem um limite na vida, hoje sabemos que os recursos naturais são escassos, mas mesmo assim não estamos totalmente convencidos. Há desperdício por toda parte, nas casas, nos restaurantes, nos supermercados, nas fábricas, nas fazendas, nos portos, nos armazéns, no trânsito, no transporte etc. Há desperdício de água, luz, combustível, comida, sementes, grãos etc. Ainda não nos demos conta de que muito do que jogamos fora fará falta no futuro. E, no caso da energia, pode fazer falta agora, já.
A cultura do desperdício ainda não foi substituída pela cultura do antidesperdício, mas isto precisará acontecer em todos os setores da vida. Haverá um ganho imenso para a população em geral. Numa época de inflação descontrolada, como a que se viveu por longos anos no Brasil, poupar qualquer coisa parecia absurdo e desnecessário. Hoje, a situação é outra. Numa economia estável, o que se poupa é um ganho real e verdadeiro, seja pelo custo menor na alimentação e nas despesas de casa, por exemplo, seja pelo custo menor das mercadorias nas várias etapas do processo produtivo.
Para o cidadão comum, racionalizar o consumo, evitar desperdícios, aproveitar melhor o que possui é, agora, um modo de melhorar a qualidade de sua própria vida, pois aproveita mais o que tem. Em termos nacionais, isto é ainda mais importante. Se cada um reduzir um pouco do consumo de energia, em sua casa, no local de trabalho, em toda parte, é fácil imaginar o significado que isto pode ter na soma de milhões de brasileiros, neste imenso País.
Sob o risco de blecaute em parte do Brasil, especialmente nas regiões mais ricas, como a nossa, reduzir o consumo não é só uma opção, mas uma necessidade vital. Um blecaute não significa apenas que a população ficará sem TV ou sem luz por algumas horas, mas será um prejuízo econômico imenso. Impedir que isto aconteça é um trabalho de legítima defesa do interesse coletivo e nacional.





