Editorial
Depois de alguns meses de silêncio - após ser censurado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso por indiscrições e destemperos verbais - o ministro Sérgio Motta voltou à cena, com carga total, atirando em todas as direções, criticando o Congresso, os partidos que apóiam o Governo e até membros do PSDB. Sobrou chumbo para todo mundo e a impressão é a de que o ministro resolveu pôr para fora tudo que teve de engolir nos poucos meses de silêncio forçado.
Como resultado, o ministro das Comunicações voltou a agitar a cena política, criando de novo um ambiente tenso, inclusive entre os aliados que formam o governo e sua base parlamentar. Para uns, o ministro fala por conta própria, não pelo presidente; não consegue se conter, seu estilo é explosivo e os estragos são de pouca monta, porque todo mundo já se acostumou. Mas para outros, o ministro só diz o que o presidente gostaria de falar e não pode, e os riscos de rachadura no governo e na base parlamentar são enormes. O ministro é uma espécie de boneco de ventríloquo e o presidente sabe muito bem o que ele está fazendo.
Muitos levam esta segunda hipótese ao pé da letra. Mas não deveriam. O presidente diz, sim, muitas coisas através de seu loquaz e agitado ministro das Comunicações, mas o sr. Sérgio Motta tem, também, pensamento próprio e independência política e ideológica em relação ao presidente, que é seu amigo de muitos anos e a quem muito ajudou nos tempos de exílio.
A primeira hipótese mesclada com pitadas da segunda é mais operacional para se entender o novo episódio. O ministro Sérgio Motta participa de um governo cuja composição tem quase todas as cores do arco-íris, menos a vermelha do PT e do PDT. É uma aliança complicada de administrar e a paciência do irrequieto Serjão é menor do que o caso exige. O presidente, ao contrário, tem paciência e habilidade de sobra, embora o pensamento possa ser o mesmo que seu ministro tem sobre seus aliados.
O problema é que o descompasso entre a impaciência de um e a habilidade do outro acaba prejudicando o segundo. Há, sem dúvida, muitos motivos para criticar a ação dos partidos que apóiam o Executivo. Mas não é o ministro das Comunicações o interlocutor correto para fazer essas críticas. Não é por este caminho que se poderá realizar o trabalho que a bancada do governo precisa concretizar.
O presidente da República terá de, uma vez mais, realizar a tarefa de bombeiro, diante do incêndio ateado por seu ministro. Pode-se ponderar que, diante dos problemas que criou, o sr. Sérgio Motta de há muito se candidatou a ser demitido. Mas, ele certamente o sabe, a demissão de um membro do ministério e defensor acérrimo do PSDB não é uma coisa fácil de fazer. E neste momento, mudança no ministério é o que menos precisa o presidente. Em síntese, sem poder afastar o ministro, restará ao presidente tentar, outra vez, minimizar seus estouros.
Pior é que nesta hora o Brasil não precisa de nada disto. A política miúda não serve a ninguém, apenas piora ainda mais a já negativa imagem que, em geral, os homens públicos têm no País. As críticas do ministro Sérgio Motta mais atrapalham do que ajudam, abrindo feridas e provocando desavenças num momento em que se reclama a união de forças para se aprovar as reformas das quais dependem a continuidade do Plano Real e o futuro de todos nós.





