Editorial
Historicamente, Brasil e Argentina já foram inimigos e aliados. Ao longo de séculos, mantêm uma rivalidade que deve ser compreendida pela posição geográfica, os princípios nacionalistas de cada povo e o grande potencial econômico dos dois países. Nada disso é motivo para guerras, mas para competir e progredir. Se o Brasil é territorialmente maior, a Argentina tem a vantagem do clima, bem mais propício, e do solo, ainda mais fértil que o nosso. A Argentina é também mais politizada e seu nível de instrução sempre foi maior. Mas o Brasil tem uma indústria mais forte e um mercado tão grande que pode sustentar por muitos anos a indústria de exportação argentina.
Os dois povos devem, apenas, saber dessas coisas, conhecer essas diferenças - que são as vantagens específicas de cada um - e acertar os relógios de seus anseios, para que, em vez de dividir, a globalização regional permita a soma e a multiplicação da riqueza para todos.
Este é o espírito e a natureza de todos os mercados supranacionais. O Mercosul, aliás, é o segundo maior mercado regional do mundo. São 250 milhões de pessoas e só é menor do que o Nafta, na América do Norte. O Mercado Comum Europeu é menor do que isso (200 milhões de pessoas) e o dos tigres asiáticos também. E existe outra peculiaridade: as diferenças entre os europeus eram muito fortes, enquanto aqui elas podem ser facilmente transformadas em convergências, ao invés de divergências.
O MCE passou décadas resolvendo pequenos, e às vezes grandes, conflitos entre os diversos países. Cada um tinha um intrincado contencioso econômico e comercial com o outro. No Nafta, são gritantes e dispensam detalhes as diferenças econômicas entre os Estados Unidos, o Canadá e o México. Somente na Ásia não havia diferenças para atrapalhar e por isso a união foi extremamente fácil e rápida. Pode ser assim também no Cone Sul latino-americano.
Aqui, devemos apenas resolver o que o Brasil vai plantar no lugar do trigo e de algumas espécies de frutas. É recomendável que o processo de substituição seja gradual e muito bem gerenciado, para não haver distorções e prejuízos. Hoje, por exemplo, há evidente prejuízo para o Brasil na questão do trigo e mesmo de outras culturas no Rio Grande do Sul e Paraná, principalmente. No momento, esses prejuízos são maiores do que os lucros obtidos, por exemplo, com as exportações de carne de frango para o Paraguai, Argentina e Uruguai.
Mas nada invalida o Mercosul. Este é o caminho, não só para Argentina e Brasil mas para toda a América do Sul. A importância desse mercado pode ser medida pela reação de algumas potências, que levantam rivalidades regionais a fim de atrapalhar a marcha da união. A filosofia do dividir para governar é parte integrante das ações internacionais das grandes potências. Mas não é o que interessa aos países da América do Sul.
A questão sobre um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU é um exemplo típico dessa política divisionista. Na verdade, para os povos do Brasil e da Argentina não tem a menor importância quem ocupará uma possível nova cadeira no Conselho de Segurança. Isto só tem glamour para os presidentes, ministros e o segundo escalão dos governos dos dois países. Daí por diante, nem para os governadores de Estado ou de província isto tem interesse.
Só interessa aos Estados Unidos e às outras potências, que não querem grupos regionais fortes porque isto as obrigaria a redesenhar e reorganizar totalmente suas economias. Na América do Sul, todos os países estão no mesmo barco e o interesse comum deve estar acima de qualquer outra coisa. O objetivo maior da união é mais importante do que os problemas econômicos naturais de uma aliança inovadora e revolucionária. E com muito mais razão uma aliança dessa natureza não pode ser abalada por questões plantadas por terceiros com o visível interesse de provocar intriga, ciúmes e dissenção.





