Editorial
A coincidência com o domingo faz do 7 de Setembro deste ano uma data que parece perdida no calendário. Entretanto, neste momento especial que o Brasil vem vivendo, com mudanças econômicas que estão transformando seu povo em agente de um processo maior de resgate social e histórico, a celebração da Independência ganha uma conotação mais ampla, uma dimensão de real nacionalidade.
Longe estão os tempos do ufanismo autoritário e pueril. Hoje, o Brasil vive uma situação nova em que avulta, mais do que os resultados da batalha contra a inflação - vencida depois de dez anos de fracassos deprimentes -, uma crescente conscientização sobre o verdadeiro exercício da cidadania. O Brasil, 175 anos depois do Grito às margens do riacho Ipiranga, surge bem diferente do que era até mesmo em um passado recente. É uma nação que sente seu potencial e cujo povo amadurece como criador de um tempo melhor para si e seus filhos.
Por muitas décadas, ou séculos, o Poder autoritário apresentou-se à população como o responsável por tudo que de bom poderia acontecer e fluir para as vidas de cada um. A figura do governo bondoso e capaz de tudo vem, por sinal, desde a data da Independência, em 1822. Não pela Independência em si, mas por um desvio histórico e psico-social. E o povo, em contrapartida, acreditou, portando-se como aquele que deve esperar que tudo venha do alto do Poder.
Forma-se aí a legião dos salvadores da pátria, aqueles que surgem nos momentos de crise para fazer o povo acreditar que é neles que se deve confiar, e não em si mesmo. O povo faz Carnaval e joga futebol confiante no grande pai que provê tudo ou, se este não dá mais conta, no salvador de plantão. Nem mesmo os períodos mais livres e democráticos, inclusive o que ocorreu entre 1945 e 1964, ofereceram condições para uma mudança de mentalidade, capaz de dar aos brasileiros a percepção de seu papel criador.
Foi a resistência à última ditadura, curiosamente, que começou a desenhar uma nova fisionomia para a nação. E o fim do totalitarismo, alcançado não pela guerra mas pela vontade popular, apoiada por uma oposição que cresceu por esta mesma vontade, constituiu um marco fundamental. Era o começo de uma nova etapa da vida nacional.
Quando, em 1986, o povo se mobilizou em defesa do Plano Cruzado, havia ali a semente da nova nacionalidade que surgia. Não importa se o plano fracassou, por graves falhas de concepção e também de gerência. Isto não prejudicou o crescimento das energias que impulsionam a cidadania. E os fracassos que se repetiram dali em diante também não. A investigação do esquema PC e do envolvimento do presidente Fernando Collor é o marco desta nova consciência, que se consolida com o novo plano de estabilização econômica.
Mais uma vez, não é o fim mas o começo. O Plano Real é também uma semente, pois o controle da inflação em níveis civilizados é somente a preparação para a retomada do crescimento econômico e do desenvolvimento social. Para isso, reformas profundas devem ser produzidas nas estruturas da vida nacional. E isto vai acontecer somente se a nova consciência da nação suplantar as dificuldades e interesses adversos que se interpõem no caminho.
Um povo que se percebe dono do próprio destino, que luta por seus direitos, mas entende e aceita seus deveres, mostra a face do novo Brasil. Na data de hoje não se comemora mais o presente dado pelo príncipe, nem a democracia permitida pela ditadura. Comemora-se o que D. Pedro I significa como libertador do Brasil, e depois combatente da liberdade em Portugal. É a Independência de quem sabe que para consegui-la e mantê-la é preciso lutar por ela com consciência, trabalho e amor. É a Independência de um povo que sabe o que quer e para onde vai.





