O drama no Peru

O presidente peruano Alberto Fujimori surpreendeu o mundo quando, em pleno exercício de seu mandato constitucional, fechou o Congresso e a Justiça e assumiu todo o poder em seu país. Alegou, então, que era o único modo de resolver os dramáticos problemas do Peru, que incluíam corrupção, miséria e terror guerrilheiro. O Sendero Luminoso, um dos mais ativos grupos de guerrilha surgidos no continente, se mostrava cada vez mais forte, enquanto também o Movimento Revolucionário Túpac Amaru rivalizava em violência e ousadia. Fujimori assegurou que para vencer a guerrilha e os problemas nacionais era preciso estabelecer um governo forte, sem os entraves de uma Justiça e de um parlamento que estavam sob suspeita de corrupção.
Os resultados obtidos por Fujimori, aparentemente espetaculares, transformaram seu golpe numa espécie de modelo para o continente, de tal modo que não poucos sugeriram uma fujimorização no Brasil e em outros países. Ao que se indicava, a moralidade pública fora restaurada e a guerrilha acabara. Os líderes dos dois principais movimentos guerrilheiros estavam presos, muitos se entregaram. Fujimori convocou novas eleições, reabriu a Justiça, obteve até um novo e consagrador mandato popular.
Repentinamente, todo este quadro de sucesso sofre um violento golpe com a ação dos guerrilheiros do Movimento Revolucionário Túpac Amaru na residência do embaixador japonês em Lima, onde entraram disfarçados de garçons e convidados - como num filme de 007 - e com a maior desenvoltura tomaram quase meia centena de pessoas como reféns, entre as quais ministros do governo, embaixadores de outros países, Brasil inclusive, e muitas outras personalidades.
O que salta aos olhos no episódio é que o presidente Fujimori estava redondamente enganado quando pensou que a repressão havia extinguido a guerrilha em seu país. Problemas sociais, seja os da subversão ou os da miséria, não se resolvem com medidas de força e a autoridade de um tirano, mas com medidas sérias e profundas que atinjam o cerne do problema. Não há dúvidas sobre a necessidade da força no sentido de preservar a segurança e manter a ordem pública. Mas isto pode (e tem que) ser feito sob os padrões da legalidade.
Fujimori derrogou a democracia com a justificativa de que precisava de poderes excepcionais para enfrentar uma situação extrema. Guardadas as proporções, foi quase o mesmo que ocorreu no Brasil em 1964. Lá como cá os ditadores diziam que pretendiam salvar a democracia e, na verdade, a matavam. E nos dois casos, a violência e a força não resolveram os problemas sociais.
O Brasil teve melhor destino quando se livrou, pela mobilização política e popular, do regime autoritário. Já no Peru, Fujimori reelegeu-se como o redemocratizador depois de ter sido o tirano. Apenas, pelo que se percebe agora, não resolveu o problema principal. Reprimiu a subversão, mas como não acabou com suas causas, vê-se de novo às voltas com ela. O que fará para enfrentar de novo esta situação que dizia dominada é uma incógnita. A antiga alegação não serve mais. Pretender, outra vez, fujimorizar, não resolverá coisa alguma.
No Peru, como em toda a América Latina, a tragédia social, que é o fermento para a guerrilha e a luta armada, não se resolverá com medidas repressivas. É preciso vontade e coragem para ir à fonte, criar e propiciar condições de vida digna para os marginalizados, restaurar-lhes a dignidade através do trabalho digno e do salário justo. Do contrário, oferecerá terreno fértil para rebrotarem as guerrilhas e as idéias sangrentas do terror.

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