Editorial
A morte de Madre Teresa de Calcutá, que provoca o pesar da Humanidade, traz imediatamente a referência a outra morte, uma semana antes, da princesa Diana, duas pessoas totalmente diferentes, com vidas desenvolvidas de modo completamente diverso, mas que, ao termo de suas existências, são homenageadas porque se dedicaram, por toda a vida ou em parte dela, a fazer da solidariedade a marca maior de sua passagem por este mundo.
Duas vidas muito distintas. Diana viveu 36 anos, dos quais 14 sob os refletores da mídia, conquistou a simpatia do mundo por seu modo elegante mas simples de ser, abriu um espaço pessoal, independentemente da monarquia a que se ligou pelo matrimônio. Sua dedicação às causas humanitárias deu-lhe grande projeção, que cresceu mais ainda depois do fim de seu casamento com o príncipe Charles. Madre Teresa viveu 87 anos, os últimos muito doente mas com o espírito tão forte que seu frágil corpo físico ganhou sucessivas sobrevidas. Deixa o legado de uma vida intensamente dedicada aos fracos, a tal ponto que dela se poderia dizer que viveu para os outros.
Tirada pelo Prêmio Nobel do anonimato com que atendia os miseráveis da Índia, país que tem centenas de milhões de marginalizados, Madre Teresa continuou a mesma e só usou o Nobel como mais um elemento em sua cruzada pessoal contra a miséria. Não há como dimensionar toda a obra desenvolvida pela pequena irmã de caridade que, como poucas pessoas em 2 mil anos de cristianismo, viveu para seguir os ensinamentos do Mestre. Uma vida luminosa, forjada em um constante sacrifício, sem descanso e sem lamentos. Tornada mundialmente famosa como resultado de seu trabalho, Madre Teresa causava admiração por abrigar em sua figura tão frágil uma vontade de ferro, um amor incondicional pelo próximo, uma capacidade de doação sem limites.
É costume dizer-se, com uma boa parcela de razão, ante a morte de pessoas de tamanha dimensão como Madre Teresa, que o mundo ficou mais pobre. No entanto, o inverso é muito mais verdadeiro, pois o mundo ficou muito mais rico pela fulgurante passagem de uma personalidade que dignificou o sentido da vida e da existência do ser humano.
O fato de ter existido uma Madre Teresa neste mundo tão cheio de ódios, preconceitos e misérias é um clarão de esperança e remissão para a humanidade, que é capaz também de gerar Teresa, a irmã Dulce, a princesa, o irmão do Henfil. Se pode haver esperança para o bicho que povoa a Terra e se diz rei da Criação, ela surge de pessoas como essas que o mundo perdeu, esta semana ou um pouco mais.
A morte de Madre Teresa tem o poder de deslocar o sentimento da tristeza. Há indignação ante a morte de Diana, inconformidade na de Betinho pelas circunstâncias em que contraiu sua doença. Mas há paz no espírito, serenidade e profunda esperança na de ontem.
Na Inglaterra, já surgem campanhas de arrecadação de fundos para dar continuidade ao trabalho desenvolvido por Diana. Madre Teresa deixa incontáveis seguidoras, irmãs como ela, que já vinham dando sequência a sua missão pelos desamparados. Sua morte é uma motivação. Muitos vão seguir-lhe as pegadas. As vidas humanas quando fecundas são assim, acabam, mas a luz que irradiam segue apontando caminhos para os que ficam.





