A aprovação, pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, de emenda que acaba com o segundo turno nas eleições para governador e prefeito ainda vai ter um longo caminho até se tornar realidade mas já provoca debates, o que é muito útil. De fato, a questão é polêmica e tanto os que apóiam a realização do segundo turno, que garante maioria absoluta ao vencedor, como os que são contra têm argumentos ponderáveis e válidos.
Os que defendem o segundo turno - e já iniciaram o trabalho para derrubar a emenda, ou no Senado ou na Câmara, que terá de votar a matéria caso ela seja aprovada na outra Casa do Congresso - argumentam que o candidato ganha com o segundo turno um apoio maior que lhe dá condições mais adequadas para exercer o governo.
Quem não quer segundo turno argumenta que o desgaste político é grande e desnecessário, o custo é maior ainda e o desinteresse dos eleitores, insatisfeitos por não se resolver de uma vez a disputa, suplanta os dois itens juntos.
São bons argumentos de lado a lado. Mas o dos defensores do segundo turno tem um grave defeito. Pois o apoio para o chefe do Executivo governar - que seria reforçado pela maioria absoluta na segunda votação - não vem só do voto popular. Vem também da composição do Legislativo e esta pode ser tão adversa que o exercício do mandato se torna às vezes extremamente difícil. O presidente Fernando Henrique Cardoso nem precisou de um segundo turno, mas seu partido não é maioria e a composição que sustenta seu governo no Congresso até hoje não conseguiu aprovar as reformas da Constituição que são fundamentais para fazer do Plano Real um instrumento de desenvolvimento econômico e social.
A esmagadora maioria de votos que o presidente obteve sobre vários candidatos apenas lhe deu o mandato presidencial. Isto é tão pouco que o próprio presidente empenhou-se a fundo em aprovar a emenda que permite a reeleição no Brasil, inclusive para ele neste mandato.
O nó da questão, portanto, não é o total de votos que o candidato consegue para se eleger, mas a composição do Legislativo que com ele vai governar. Os mais exigentes vão alegar que se um presidente, governador ou prefeito se elege mas não consegue maioria parlamentar, é porque o eleitor errou, não sabe votar, escolhe candidato de um partido para o Executivo e de outros para o Legislativo. Isto, porém, é apenas parte de um problema muito mais amplo que envolve toda nossa estrutura política, que permite na disputa eleitoral partidos sem real bagagem ideológica e de um fisiologismo que conspurca as melhores intenções.
Na verdade, o sistema político brasileiro reclama profundas alterações que, lamentavelmente, não vão ocorrer. Quando se observa o modo como se elaborou e votou a legislação para o pleito que vai acontecer, é fácil perceber o casuísmo, o interesse, o jogo particular em primeiro lugar. Não houve espaço para um debate que alargasse nossos horizontes e alçasse nosso sistema político a um novo degrau na escala evolutiva das grandes democracias. Novamente, os interesses imediatos e menores prevaleceram, a ponto de a questão de um ou dois turnos para eleger governadores e prefeitos parecer, apenas, um simples acessório.

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