O Simpósio da Sociedade Mundial de Vitimologia, realizado em Amsterdã, revelou que África e América Latina encabeçam o ranking internacional em matéria de delitos. Os países africanos e latino-americanos levam todos os ‘prêmios’, em especial quanto a delitos contra mulheres. No Brasil, o país mais violento para as mulheres, segundo a pesquisa, 23% delas foram vítimas de violências, de caráter sexual ou não, conforme assinalou o professor holandês Jan van Dijk ao apresentar o trabalho final do encontro. Em Uganda, essa porcentagem é de 21% e na Argentina de 19%. A média mundial de habitantes das grandes cidades vítimas de um ou vários delitos nos últimos cinco anos é de 66%. Na África e na América Latina, ela atinge 75% da população, o que serve para reafirmar a conclusão do trabalho.
Só 21% dos delitos são denunciados à polícia na América Latina e 31% na Ásia. A média mundial varia em função do tipo de delito: 67% dos roubos de domicílio são denunciados, mas só 30% das agressões contra as mulheres o são. Na Ásia e na América Latina essa relação é de uma denúncia para cada cinco casos (20%). Segundo o trabalho, 24% das vítimas de delitos violentos, principalmente mulheres, receberam uma atenção especializada nos Estados Unidos e Europa do Oeste, mas essa porcentagem cai a 4% no resto do mundo.
Em suas conclusões, o professor Van Dijk frisa que ‘‘o alto nível de delitos graves e de corrupção nos países em vias de desenvolvimento não só causa prejuízo aos indivíduos como também aos investimentos estrangeiros e ao crescimento econômico’’ dessas nações. Igualmente, acrescentou que um dos perigos maiores para a sociedade é a proliferação das armas de fogo e recomendou um plano mundial para acabar com esse problema.
O trabalho foi realizado entre 1992 e 1996 em 54 países sob a forma de uma pesquisa que envolveu, no total, 138.000 pessoas. A iniciativa foi lançada pelo Ministério da Justiça holandês e apoiada pelo Instituto de Pesquisa Criminal das Nações Unidas.
Este tipo de estudo não pode ser visto como mais um entre os milhares de pesquisas que se fazem pelo mundo. Estão aí alguns elementos importantes sobre a precária qualidade de vida no planeta. E a posição brasileira, com um destaque negativo para a situação das mulheres, é preocupante. Há, ainda, no trabalho, outro aspecto grave e que diz respeito ao percentual dos crimes não denunciados. Se apenas 21% das ocorrências são levadas à autoridade, é possível perceber a magnitude da questão e a necessidade, urgente, de se atentar não apenas para a situação das vítimas, mas também para o drama social implícito na falta de condições para levar à Justiça os criminosos.
O quadro que mostra a América Latina como um dos paraísos da violência não deve resultar em críticas aos responsáveis holandeses pelo estudo. Precisa, isto sim, despertar as coletividades interessadas para a necessidade de se trabalhar duro e efetivamente para garantir os direitos básicos para a população.
O Brasil, que vive uma situação difícil em matéria de segurança, precisa redefinir as prioridades, ainda mais num momento em que o próprio presidente da República assinala que a população, hoje, sob o atual plano de estabilização, vive melhor. As falhas na segurança, a violência contra mulheres e menores, principalmente, a falta de denúncia de muitos crimes, tais fatos precisam de análise profunda. Pois não é só na dentadura que se percebe a melhoria de vida de um povo.

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