Editorial
A falta de planejamento é um dos grandes problemas para um país que, potencialmente, tem todas as condições de superar o estágio do subdesenvolvimento. No Brasil, o que se observa em praticamente todos os campos é um acúmulo de equívocos, produzidos em grande parte pela falta de visão abrangente da situação e de um trabalho sério capaz de antecipar dificuldades com a disposição de superá-las. Típico desta situação é o que ocorre, agora, no setor do álcool, com um excedente de produção estimado em 2 bilhões de litros. Para resolver o problema, produtores de álcool e de cana-de-açúcar que integram o Comitê Consultivo do Açúcar e do Álcool propuseram ao ministro da Indústria, do Comércio e do Turismo, Francisco Dornelles, a adição de álcool ao óleo diesel. Esta seria a principal medida de curto prazo para a absorção do excedente.
A proposta é inteligente e pode resolver não só o atual problema de excesso de produção, como também reduzir a poluição atmosférica provocada pelo diesel. Entretanto, a situação criada mostra como são as coisas no Brasil. Hoje, devido a uma série de fatores, inclusive a produção recorde de cana nesta safra, há produto de sobra. Mas o que acontecerá no próximo ano? O programa do álcool não tem merecido a atenção que deveria ter e as medidas que o próprio Governo toma são de molde a desestimular o setor produtivo. Falta, neste como em tantos outros setores, um planejamento real, um trabalho concreto e bem fundamentado que não obrigue a se buscar soluções de emergência diante de aumentos inesperados da produção.
Há muitos anos que se sabe da importância e das vantagens do álcool para a geração de energia no Brasil. Entretanto, para que isto ocorra será necessário que haja uma política muito bem definida a respeito. O excedente de álcool previsto para este ano decorre de uma produção recorde e do esgotamento das exportações de açúcar. Sobrou agora, mas não há quem saiba o que ocorrerá no futuro. Os produtores precisam saber, e com antecedência, dos planos do Governo. E também os consumidores deveriam ser considerados.
Durante duas décadas, até o fim dos anos 80, houve forte estímulo à produção de carros movidos a álcool. De repente, isto mudou. Tivemos grande produção por um bom tempo e, subitamente, uma sucessão de erros fez o programa naufragar por falta de álcool durante um curto período. Não porque faltasse produção, mas porque o produto estava estocado nos lugares errados, no vasto território nacional. É um jogo maluco, que prejudica a todos. Isto é incompreensível e irracional.
Misturar álcool ao diesel não pode ser apenas uma opção emergencial, inclusive por razões técnicas, de engenharia de motores, e de vendas. Há que se levar isto a sério. O Brasil pode produzir mais álcool ainda, do mesmo modo como pode produzir mais alimentos. Mas tudo tem de ser feito de modo racional, ordenado e planejado. Não se pode mais permitir que o sistema produtivo seja deixado à própria sorte. Com o estabelecimento de uma política de planejamento que envolva todo o setor agrícola seria possível não só melhorar as condições de vida no campo, como também lançar bases efetivas para o grande salto de desenvolvimento nacional que se antecipa.
O álcool é um combustível que, embora mais caro que a gasolina, o Brasil pode produzir na quantidade que quiser, para movimentar sua frota inteira de automóveis, caminhões, tratores etc. por tempo indeterminado e qualquer que seja o futuro tamanho dessa frota. A economia de divisas seria da ordem de dezenas de bilhões de dólares ao ano. Nosso déficit comercial simplesmente desapareceria e no seu lugar teríamos um enorme superávit, só por conta dessa substituição. Para fazê-la acontecer, basta vontade de fazer e planejamento sério e competente.





