A trágica morte da princesa Diana coloca em evidência uma amarga realidade de nosso tempo. Lady Di, como era chamada, morreu porque o automóvel que a transportava em alta velocidade fugia de fotógrafos free-lancers que a perseguiam. Montados em motocicletas e ocupando também um automóvel, os aventureiros estavam de novo atrás de cenas que rendessem alguns trocados nas páginas de pasquins sensacionalistas da Europa. Não é sem motivo que seu irmão, ao ler um comunicado na Cidade do Cabo, ontem, disse que ‘‘a imprensa está hoje com sangue nas mãos’’.
O assédio que sofreu durante anos por certo tipo de imprensa, desde antes de se separar do marido, o príncipe Charles, foi absolutamente desumano, impiedoso e sob muitos aspectos criminoso. Não eram jornalistas. Jornalistas não são bandos de siderados atrás do que mentes doentias julgam ser escandaloso ou escabroso. Não eram fotógrafos, mas, simplesmente, vigaristas com uma câmera fotográfica na mão e nenhum conceito sobre ética ou respeito ao outro nos miolos.
A princesa encantava o mundo. Era inteligente e sensível. Teve períodos de depressão e tristeza e soube, com esforço, vencê-los com altivez e franqueza. Suas entrevistas sobre a vida de princesa, mãe e mulher são depoimentos jornalísticos de grande acuidade e sinceridade. Seus pronunciamentos sempre foram bem escritos e lidos com calma e convicção. Não era pernóstica nem deslumbrada e tinha evidente inclinação pelos mais fracos, doentes e indefesos.
Diana, nós dos meios de comunicação sabemos, era notícia. Pela projeção que alcançou em todo mundo, por suas virtudes, por suas fraquezas. E a notícia é o fundamento daquilo que se chama ‘‘a mídia’’. No entanto, a notícia não dá permissão a ninguém de fazer dinheiro através da devassa à privacidade e intimidade das pessoas, mesmo as famosas. E nenhuma empresa que se diz jornalística deve ser cúmplice do desrespeito e do desprezo à individualidade. O limite entre o público e o privado não está em nenhum código legal. Até alguns anos atrás acreditava-se que deveria estar somente na consciência das pessoas. Hoje, sua falta ou indefinição é um atraso no âmbito do Direito privado. Não porque as pessoas tenham ficado piores, mas porque a vida mudou, o privado ficou menor e o público maior. A sociedade humana, antes fechada e feudal, globalizou-se, é planetária e seus direitos mais íntimos viraram fragmentos dispersos num redemoinho de inter-relações pessoais, sociais e de interesses que afrontam a integridade espiritual dos indivíduos.
Há, sim, definição e punição para a chantagem, a calúnia, a injúria, a difamação. Mas não há nem uma coisa nem outra para quem importuna até a loucura uma pessoa e vende a terceiros, sob a aparência de ‘notícia’, o que conseguiu tirar da outra, em texto ou foto. Um ou outro caso tem sido levado à Justiça, mas é uma falha da lei não impedir, por escrito, a exploração da vida particular de uma pessoa por vigaristas, sejam fotógrafos ou empresas impressoras de papel.
O problema é que não há só vigaristas e empresas inescrupulosas, mas também um vasto público que paga para ver, ler e ouvir. Mas se a sociedade precisa - e vai - evoluir para níveis mais elevados de educação e consciência, nem por isso se pode deixar de cortar o mal pela raiz aqui e agora.
A reação de um grupo de pessoas que viram o desastre e agrediram os que fotografavam a cena mostra como é repugnante o abuso, a insensibilidade, a violência moral. A sociedade humana rejeita esses desvios e aceitará, em sua grande maioria, a limitação legal da liberdade de produzir e publicar abusos.
No país da princesa, uma lei de proteção à imagem privada das pessoas foi apresentada à Câmara dos Comuns e não passou, em nome de uma discutível liberdade de imprensa. Com este final trágico, deve-se repensar essa liberalidade, que é licenciosidade e não liberdade e nada tem a ver com a verdadeira imprensa e seu direito de informar.

mockup