Editorial
Com impressionante crescimento econômico, aumento na oferta de empregos, inflação muito baixa, era de crer que os norte-americanos estivessem vivendo momento de euforia e esperança. Mas não é o que ocorre, conforme pesquisa feita pelo jornal Washington Post e pela rede de televisão ABC. Ela revela que mais da metade da população acredita que seu país caminha na direção errada. Segundo os números, 57% dos norte-americanos se mostram pessimistas sobre o futuro de seu país e três em cada quatro cidadãos não têm confiança no governo e em seus dirigentes. Este quadro se mostra ainda mais sombrio com os dados de uma sondagem efetuada pelo Instituto Princeton Survey Research Associates, indicando que dois terços dos norte-americanos acham que a segurança no emprego é pior que há 20 ou 30 anos e estimam que o stress é maior.
As pessoas ouvidas estão indignadas com a violência da sociedade e com a perda dos valores familiares. O número de lares sem pai não tem precedentes, comentou Thomas Seaman, de 46 anos, dirigente de uma fábrica têxtil. As mulheres são mais pessimistas que os homens sobre o futuro de seu país. Só uma em cada três norte-americanas acha que os Estados Unidos estão no bom caminho, contra um em cada dois homens. Estes resultados mostram que não existe apenas o dinheiro e que a prosperidade sozinha não trará novamente o otimismo e a confiança em si mesmo que os norte-americanos perderam durante os últimos trinta anos, segundo os sociólogos, comenta o Washington Post.
Curioso observar que, há alguns dias, trabalho similar feito no Brasil informou que os brasileiros estão recuperando o otimismo. Isto, apesar de não se estar vivenciando uma fase de crescimento econômico como a que ocorre nos Estados Unidos, e nem de se perceber ainda uma evolução no delicado campo do emprego. Naturalmente, este quadro evidencia uma diferença conceitual entre os povos. Os norte-americanos, habituados a outro tipo de realização, têm um sentido talvez mais crítico. E, seguramente, diante da incerteza das grandes mudanças que estão ocorrendo pelo mundo, sentem-se inseguros com as projeções sobre o futuro. Os Estados Unidos, que emergiram como potência definitiva ao final da 2ª Guerra Mundial, que chegaram a um ponto de incontestável supremacia com o esboroamento do grupo comunista, podem estar se sentindo no auge. E quando se atinge o topo, só há a dura necessidade de permanecer ali, sendo que a perspectiva é a de iniciar a decadência.
É certo que a configuração mundial vai mudar, e muito, no próximo século. Um estudo sobre o potencial brasileiro, por exemplo, realizado há alguns anos, indicava que o Brasil, se bem governado, poderia se tornar uma potência mundial em 15 a 20 anos e se malgovernado, chegaria ao mesmo ponto em 50 anos. Isto significa que, graças às suas reservas, o Brasil vai sair desta dura faixa de país subdesenvolvido a médio ou longo prazo. Todas estas perspectivas de mudanças talvez justifiquem tanto o otimismo dos brasileiros, que pressentem um tempo novo, como o pessimismo dos norte-americanos, que mesmo vivendo um momento de crescimento temem a queda.
Pesquisas, naturalmente, não indicam senão um estágio observado no momento em que são feitas. Também podem ser contestadas porque não conseguem, por mais bem elaboradas que sejam, atingir o quadro geral da realidade. De qualquer modo, são importantes porque mostram determinada tendência. E quando revelam, como no caso brasileiro, traços positivos, é importante levá-las em conta e até aproveitá-las. Afinal, uma perspectiva positiva, como a revelada na pesquisa brasileira, pode ser até fundamental para concretizar grandes realizações.





