Motivos para o descrédito

A denúncia sobre uso de informações bancárias, constitucionalmente sigilosas, como elemento de pressão política e a nova acusação sobre tentativa de extorsão na Comissão de Orçamento pintam um quadro nada edificante neste fim de ano para a atividade política de modo geral e os detentores de mandato, em particular. Depois de tudo que já aconteceu desde a redemocratização, incluindo aí o caso PC, que derrubou o presidente Fernando Collor, e a corrupção na Comissão de Orçamento da Câmara dos Deputados, envolvendo políticos de muito prestígio, pensava-se que a quota de escândalos no Brasil tinha se esgotado, pelo menos até o fim da década, do século e do milênio.
Infelizmente, a recorrência de tais eventos, somada a outros fatos pouco lisonjeiros, como as convocações extraordinárias de vários Legislativos estaduais a peso de ouro, conspurca a imagem da representação parlamentar num momento muito delicado para o futuro do País. Obviamente, temos bons políticos nas Câmaras, nas Assembléias e no Congresso, mas as frutas estragadas, pela frequência com que ficam podres, acabam pondo em descrédito a cesta inteira.
O conceito da representação política sofreu, paralelamente aos anos de hiperinflação, uma desvalorização radical. A definição clássica de que o poder é do povo e em seu nome será exercido tornou-se tão desgatada quanto as velhas moedas que tivemos nos últimos dez anos. Para muitos políticos, inclusive parte da população, o poder político é como um trono real distante da plebe, fechado em si mesmo e que não deve satisfação a ninguém. É assim que muitos se comportam e por isso a população tem tantas queixas contra o Legislativo.
O mandato parlamentar, vale recordar, pertence não ao político, nem ao partido, nem ao Legislativo. Pertence a quem o outorgou e o cidadão nele investido tem deveres e obrigações para com seu legítimo detentor. No entanto, as coisas são rapidamente invertidas e aquele que se elege se sente acima e além do povo. Surge a casta, que acaba se protegendo, mesmo quando um dos seus membros é reconhecidamente corrupto.
No caso da CPI dos ‘anões’ do Orçamento, que cassou o mandato de alguns dos denunciados, o sentimento geral da população é de que não se fez justiça a todos nem justiça completa a cada um dos punidos. Se os punidos perderam o mandato, até hoje mantiveram seus bens intocados. Ninguém sabe o que foi adquirido com o produto das fraudes. O povo, que é quem paga tudo, inclusive os adicionais dos deputados em sessões extraordinárias, não sabe o que se passa nos gabinetes do Poder que elege, nem mesmo quando o próprio Poder expele do seu cesto as frutas podres.
Enquanto não houver uma efetiva mudança na mentalidade dos homens públicos, os alicerces em que se sustenta a democracia correm perigo. Os votos em branco, que aumentam a cada novo pleito, são indicativos da perda de confiança do povo na representação parlamentar. Isto é extremamente nocivo para o presente e o futuro da Nação. Os parlamentares fariam grande contribuição para minorar este sentimento negativo se ao menos não dessem mais motivos para a desconfiança.
Poderiam começar pela moralização dos pagamentos por sessões extraordinárias, convocações e desconvocações. O bolso do contribuinte, penhorado, agradeceria.

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