Por muito tempo, o povo brasileiro foi considerado ‘alegremente irresponsável’, muito interessado em Carnaval e futebol, feliz com a exuberância da terra em que nasceu, ‘deitado eternamente em berço esplêndido’, como cantam os versos do Hino Nacional. Este traço da personalidade nacional encanta os turistas e assanha os demagogos e os patriotas do ufanismo totalitário, que nos anos 70, com o ‘milagre’ econômico, queriam o Brasil só para quem fosse a favor. O sentimento da cidadania, porém, não vive apenas dos louros das vitórias, mas também da cobrança dos direitos, da luta pela liberdade, da conquista da soberania, da prosperidade coletiva. A recessão dos anos 80 e o fim da ditadura militar provaram que a cidadania é feita com luta e esperança, mais do que com festa e ciranda.
Os brasileiros têm hoje uma consciência mais séria e ampla de seu papel na vida nacional. O despertar da cidadania, que teve momentos de pico quando do esforço contra a ditadura, que sofreu sério revés com a morte de Tancredo Neves, voltou a subir com o Plano Cruzado, degringolou com a hiperinflação do fim dos anos 80 e reverteu-se com a revelação dos escândalos Collor e PC, acabou alcançando um novo estágio nos últimos anos. Sem dúvida, o êxito do plano de estabilização da economia é um fator crucial. Mas é importante anotar que a população mais consciente de seu papel teve uma relevante participação no sucesso.
Agora, pesquisa do Ibope a pedido da Confederação Nacional da Indústria revela que o brasileiro está mais otimista do que no começo do ano, não só em relação ao plano econômico, mas com outros aspectos da vida. O ‘alegre irresponsável’ de algumas décadas atrás, que foi o triste e assustado de tempos mais recentes, sente-se hoje mais confiante e seguro. Mesmo com o desemprego em níveis elevados para os padrões brasileiros. E se nem o medo de ficar desempregado tira a confiança da maioria, isto é indicativo de que a esperança está de volta e, principalmente, de que existe a percepção de que os problemas existentes podem ser resolvidos.
Trata-se de um otimismo lúcido, diferente da postura infantil de outras épocas, quando toda a euforia vinha de fatores externos, das maravilhas da natureza, ‘perpetuamente em festa’, qual ‘seio de mãe a transbordar carinhos’, como escreveu Bilac. O povo teve de sofrer muito, de passar por numerosas provações, de ser sacrificado por décadas para atingir esta maturidade que hoje o torna não um observador, mas um partícipe do processo de construção do seu próprio futuro. Esta é a diferença mais marcante dos dias de hoje, quando o povo busca o apoio de seus condutores sabendo que ele, e ninguém mais, é o agente principal de sua escalada.
O quadro é bom para as pretensões do atual presidente de disputar um segundo mandato, mas é melhor ainda para a população. É mais importante o despertar da consciência do que uma eleição, pois uma coisa é para toda a vida - a vida e o futuro de um país - e a outra é por tempo curto e determinado. O importante é a evolução de um povo que cresce vencendo os mais incríveis obstáculos.

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