A situação argentina




A Argentina chegou, nesta passagem de ano, à melancólica situação de que ninguém quer assumir o comando de seu governo. A nação está literalmente sem comando e não há, no país, nenhuma instituição com autoridade para decidir o que fazer. O que até recentemente era apenas uma crise monetária, agora transformou-se num impasse também institucional. Teme-se por saídas pela via da força, à margem da democracia – e na Argentina isso não constitui fato novo – mas a população abomina retornos ao passado, de tão dolorosas lembranças.
Os militares têm o repúdio da maioria dos argentinos, e mesmo eles devem estar temerosos de assumir o país em tal situação, porque não garantiriam segurança nenhuma se a crise é econômica e de governabilidade. Falta, em seus quadros, inteligências para repor e economia em ordem e restabelecer o desenvolvimento. De sua vez, o senador peronista Eduardo Duhalde, ex-governador da Província de Buenos Aires e que perdeu a eleição para Fernando de la Rúa em 1999, é o favorito para exercer o mandato-tampão em lugar do também renunciante Adolfo Rodrigues Saá, mas não conta com suficiente respaldo popular, conforme pesquisa realizada domingo.
O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Oscar Camaño, que responde pelo governo por força constitucional – eis que o próprio presidente da Assembléia Legislativa (que corresponde ao Congresso Nacional), Ramón Puerta, renunciou à função para não ter de assumir a presidência do país – não deseja permanecer no cargo e propõe o aval dos partidos a fim de eleger imediatamente um presidente – pela via dos congressistas – e que governaria nos próximos dois anos (os restantes do mandato de Fernando de la Rúa).
O mais grave do momento é que os argentinos estão impossibilitados de sacar dinheiro de suas contas bancárias e isso retira o exigênio com o qual os cidadãos possam respirar. Há situação de fome, pela impossibilidade de grandes contingentes populacionais comprarem alimento. O único poder é o dos cidadãos nas ruas, rejeitando os presidentes que vão surgindo ᖠe que foram quatro nos últimos dez dias – e brandindo e batendo suas panelas vazias. E mesmo que os saques bancários sejam permitidos, os bancos não têm moeda suficiente para atender a essa corrida.
Literalmente está implantada uma ‘‘guerra civil’’ no vizinho país – não obstante pacífica, ao menos por ora – porque a manifestação que prevalece e que tem autoridade é o do panelaço e da grita popular. Qualquer governo provisório que se instale – e este é o caminho enquanto não se realizem eleições gerais para escolha do novo presidente – terá que ter a aprovação das ruas, e a situação pode ficar incontrolável. Silenciar os ‘‘paneleiros’’ é não só impossível como perigoso.
A Argentina, de povo mais culto e politizado que todos os demais do continente sul-americano, isto incluindo também um melhor padrão de vida, é paradoxalmente ainda dominada por oligarquias do bloco agrário, naturalmente corrompidas – meio do estilo Nordeste brasileiro, com a diferença de que este se estriba no poder político – e que em momento como o presente sequestra a moeda. Estas oligarquias argentinas ficam fora da crise, enquanto a população está, literalmente, encurralada.
O que se indaga é como um povo com tais características possa chegar, como agora, a um fundo de poço, sabendo-se ademais que é auto-suficiente em petróleo, grande produtor de trigo, milho, soja e carnes, lãs e couros, afora ser um país de grandes atrativos turísticos e culturais. Os analistas atribuem tudo isso à teimosa manutenção da paridade do peso com o dólar, mas é evidente a dissenção tradicional dentro das corporações políticas, o domínio das potências econômicas, conservadoras e pouco patrióticas, e a corrupção sempre muito presente nos governos.

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