A verdadeira ciranda promovida pelos políticos no troca-troca de partidos vai continuar pelo menos por pouco mais de um mês. De fato, como a legislação vigente exige que os políticos só podem se candidatar caso estejam em um partido um ano antes do pleito, a dança dos homens públicos vai, naturalmente, até 2 de outubro. Até lá, haverá ainda muitas e complexas mudanças, motivadas na maioria das vezes mais por interesses pessoais do que por questões programáticas. Na verdade, embora a estrutura da política democrática em sistemas como o brasileiro outorgue aos partidos papel de enorme relevância, o que menos se vê, tanto na formação de siglas como na troca de legendas, é a busca de padrões que estejam de acordo com a ideologia do homem público.
Teoricamente, os partidos deveriam ser as grandes forças da política nacional, com programas muito bem definidos, a partir dos quais seriam definidas as adesões. Na prática, ao menos no Brasil, isto não funciona. E há motivos e justificativas as mais variadas. Uma delas, talvez das mais fundamentadas, diz respeito mesmo à própria e complicada história política do Brasil. Enquanto em países com uma vida democrática mais antiga os partidos têm história centenária - o que também lhes dá uma base muito forte -, no Brasil as coisas se desenvolveram de modo diferente. Desde a proclamação da República, que tentou introduzir entre nós alguns dos sólidos princípios democráticos dos Estados Unidos, muitas alterações foram se processando, tornando a vida política uma confusão.
Os golpes de Estado, especialmente os de 30 e de 64, cortaram muitas possibilidades de continuidade. A redemocratização de 45 poderia ter marcado um recomeço, servindo para criar bases que, ao menos neste final de século, já teriam suficientes raízes junto à população. Menos de 20 anos se passaram e os partidos foram de novo extintos, surgindo novos, formados sob a imposição do totalitarismo. E até mesmo a grande reabertura democrática, ocorrida efetivamente após a redemocratização, em 1985, acabou por ser frustrante do ponto de vista dos partidos políticos, inclusive por ter criado condições que facilitaram o surgimento de legendas sem um mínimo de requisitos efetivos de representatividade popular.
Hoje há muitos partidos, mas poucos são os que podem efetivamente apresentar um programa, uma ideologia, uma base. Pior é que, diante disto, passeiam os oportunistas, os individualistas, os politiqueiros, que em muitos casos buscam legenda como quem procura uma roupa: afinal, é necessário sair vestido, assim como é preciso ter uma legenda para concorrer a qualquer cargo eletivo. Assim como se troca de roupa, pode-se trocar de partido, ao sabor das conveniências. Com isto, todo o processo político fica comprometido, criando-se inclusive algumas situações até absurdas. Mas tudo passa, enquanto os próprios políticos mudam as regras do jogo, sempre ao sabor dos seus próprios interesses, sem levar em conta sequer a importância do voto e o fator político da representação partidária.
Como não há qualquer perspectiva de acontecer algum tipo de mudança na legislação que valorize a filiação partidária, assim como também não se espera que ocorram alterações que acabem com as legendas de aluguel, a tarefa do eleitor vai ficar mais complicada. É difícil entender alguns ‘passos’ desta ‘dança’ dos políticos. Fica para o eleitor o duro trabalho de não só compreender toda esta situação, mas de conseguir fazer sua escolha e, principalmente, vê-la prevalecer em meio a tanta confusão.

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