Brasil e Argentina

É desalentador termos um presidente que faz uma declaração ufanando-se de que enquanto a Argentina está em crise o governo brasileiro reajusta o salário mínimo para R$ 200 e reduz o preço dos combustíveis. Para começar, a elevação do salário que nem é para agora mas para daqui a quatro meses foi de apenas R$ 20, o que só cobre metade da inflação oficial do ano mas nada acrescenta diante dos aumentos gerais, fora da cesta básica.
Quanto à política de baixar o preço dos combustíveis, que tem ranço de oportunismo pré-eleitoral, tal se assemelha à fábula sempre contada do bode que o governo colocou sob a guarda de cada família á que andava reclamando muito contra o Poder e quando a incômoda presença do animal dentro de casa chegou ao ponto de exaustão, a bondade oficial ordenou a sua retirada. O governo de FHC aumentou tantas vezes o preço dos combustíveis (assim como impostos e tarifas) que a anunciada baixa de 20% tem o mesmo cheiro do bode da fábula.
O que constrange verificar é que o ufanismo do homem que temos na Presidência da República é por tão pouca coisa e manifestado num momento de oportunismo, justamente quando o país vizinho está em crise institucional, com a renúncia do seu presidente, e a população argentina vive dias amargos, com desemprego e muitos problemas sociais.
Valer-se de comparações com uma nação em queda não exalta virtude alguma do governo brasileiro, mas apenas revela um certo caráter pusilânime do presidente Fernando Henrique Cardoso. A situação dos cidadãos brasileiros não é melhor que a dos co-irmãos argentinos, mas se tal realidade todos conhecemos desalenta constatar que nosso presidente acha que vivemos um paraíso, e isso graças a ele... Para começar, importamos da Argentina 70% do trigo que resulta no pão e nas massas de nossa mesa e fundamentais na composição alimentar dos brasileiros.
Ao invés de vangloriar-se do aumento de R$ 20 no salário mínimo e do aceno de baixa no preço dos combustíveis, depois de tantas altas, o presidente FHC deveria dizer por que seu governo não implementa políticas agrícolas que permitam sermos auto-suficientes em produção de trigo se temos extensão territorial e tanta terra arável; dizer por que como publicou ontem neste jornal o economista Luiz Fayet nos sete anos de mandato do atual governo a carga tributária cresceu cerca de 40%; por que a dívida líquida do setor público saltou de R$ 153 bilhões para R$ 670 bilhões (o que sugará, só este ano, R$ 70 bilhões em juros); por que a dívida externa, no governo de FHC, subiu de R$ 148 bilhões para R$ 205 bilhões, com o povo pagando pelo serviço dessa dívida (os juros), só em 2001, o correspondente a uma e meia usinas de Itaipu; por que as taxas básicas de juros variaram entre 17,5% e 60%, situando-se entre as três mais altas do mundo.
Com números tão elevados conspirando contra a nação brasileira, o presidente da República olha para a crise argentina e ufana-se de que o salário mínimo (já por si uma vergonha nacional) vá subir apenas minguados 20 reais. Argumento pobre, mas é o que o presidente tem para apresentar de mais grandioso. Porque o demais são só números gigantes, no reverso, como os acima citados. A crise argentina poderá não afetar tão drasticamente o Brasil, podendo até beneficiá-lo, mas isso não anula a realidade igualmente problemática que vivemos e não faz melhores os nossos governantes.

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