EDITORIAL
Juros e comércio
Os comerciantes ignoram quase completamente o Código de Defesa do Consumidor, segundo pesquisa rápida feita segunda-feira por este jornal e por técnicos do Procon. Por isso as informações ao cliente muitas vezes não são claras, sobretudo quanto aos juros nas vendas a prazo. Mas se a clareza não é passada à freguesia, com toda certeza o lojista sabe o juro que cobra e que as taxas são abusivas e ultrapassam em muito os índices oficiais da inflação.
Em quase 10 anos de contenção da inflação desde o governo de Itamar Franco certos segmentos da vida econômica brasileira ainda não mudaram a mentalidade e continuam com a mesma cultura inflacionária de tempos passados. Especialmente os bancos (esses, especuladores oportunistas e bem protegidos), as financeiras e o comércio, ou seja, os setores que mais manipulam a moeda. Então, no caso dos lojistas e é deles que hoje falamos não basta apenas declarar de maneira visível o quanto cobram de juro nas vendas a prazo, mas sim que se conscientizem de que esses juros devem seguir uma política criteriosa.
Se o comércio é tangido por uma pesada carga tributária, sabe-se que esses encargos são repassados para o consumidor. Então, não se justifica que o comerciante também passe a praticar, além do ganho natural da atividade, a ação camuflada de especulador financeiro, em forma de juros extorsivos nas vendas a prazo. Basta fazer cálculos e verificar quanto as mercadorias sobem, na compra pelo crediário.
Também não deve se iludir o freguês quando os preços são anunciados como fixos, ou seja, tanto à vista como em três ou quatro pagamentos, porque, no mais dos casos, aí já estão embutidos os juros. Há que pesquisar ofertas mais baixas, porque existem também os comerciantes mais evoluídos, que passaram a viver novos tempos e perfilam entre as gerações que despontam com outra mentalidade, mais voltada para a política de vender mais a preço justo do que pretender ganhar mais, e assim vendendo menos, o que infalivelmente levará à falência do negócio.
Comerciantes que se queixam das baixas vendas com certeza estão praticando algum erro na sua relação com o cliente, porque, mesmo em tempos de salário baixo e de muito desemprego, há lojistas vendendo bem e prosperando. Justamente porque praticam políticas de vender barato e assim vender mais, consequentemente atraindo o freguês e obtendo lucros. Não tem fundamento a argumentação dos empresários de pouca visão de que não existem milagres no universo dos negócios, e que se alguém está prosperando muito é porque ''está fazendo alguma coisa irregular''. Certamente que se isso existisse, não passaria muito tempo sem que os organismos fiscalizadores o detectassem.
O ''irregular'' que ocorre é as lojas estarem sempre cheias de fregueses comprando, enquanto o regular, nas demais, é as mercadorias ficarem nas prateleiras e os vendedores ociosos. Se não existem milagres, existem as boas estratégias. Os mais competentes para adotá-las são os vencedores. Não seria necessária a existência de Procons para fiscalizar e punir, e sim que cada comerciante fosse seu próprio fiscal e seu próprio conselheiro. Menos especulação e mais vontade de vender e de servir à clientela, esses os segredos do sucesso.





