Uma trégua na greve


Não são fatos distintos a suspensão das aulas e a não-realização do vestibular de janeiro, na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Numa situação de greve que já dura três meses nas universidades mantidas pelo Estado, não poderiam ser outros os resultados. Naturalmente que a insensata decisão tomada agora, pelo Conselho Universitário da UEL, de suspender também o vestibular tradicional do início do ano, abalou a comunidade e sobretudo os quase 19 mil candidatos inscritos para o concurso.

Greves são sempre resultado da insensatez e da ausência de diálogo, e assim, tudo o que decorrer delas será mais insensatez. É na incapacidade de entendimento entre grevistas e o governo que reside o ponto do impasse. O governador Jaime Lerner, que nunca teve olhos muito voltados para fora da Capital, veio ignorando, há seis anos, as reivindicações salariais dos professores e servidores das universidades estaduais, nem sequer compensando o correspondente à inflação. Agora as coisas chegam ao ponto de exaustão. Lerner espelhou-se no que fez o presidente Fernando Henrique Cardoso com as universidades federais.

São necessários 200 dias letivos por ano e o limite já está próximo de esgotar-se. Se a greve terminasse hoje os alunos necessitariam dos meses de janeiro e fevereiro, com aulas intensivas, para recuperar o atraso, mas se persistir por mais 30 dias não haverá mais tempo de recuperação e o ano escolar estará irremediavelmente perdido. E, no caso da Universidade de Londrina, mesmo que o movimento grevista parasse hoje, seriam necessárias algumas semanas para recolocar o campus em ordem, segundo informação de fonte autorizada.

O atual governo já recebeu a máquina governamental inflada, com 80% da receita comprometida com o funcionalismo ativo e inativo, por isso que a situação caótica já vem de longa data. Também não houve a contrapartida de diminuir gastos e modificar a situação, pois o governo continuou pródigo em gastar desmedidamente, em manter as mordomias e continuar esbanjando em outros setores, enquanto foram sacrificados os servidores, sobretudo os da educação, da saúde e da segurança. O pessoal operante foi sempre o atingido, enquanto outros segmentos foram privilegiados.

O governador Jaime Lerner alega que não tem recursos para dar aumento salarial agora, e acena com essa possibilidade só em abril. De sua parte, os servidores em greve têm direitos e sua reivindicação é justa, mas o que não é justo é persistirem nessa paralisação, com prejuízo para tanta gente. Há muitos outros caminhos para alcançar objetivos. É certo que também as lideranças comunitárias negligenciaram e só agora começam a manifestar-se, portanto bastante tarde. Ademais, falta-lhes mais representatividade dentro do Conselho Universitário. Não são só os estudantes que estão 90 dias sem aulas, mas há gente morrendo no Hospital Universitário por falta de atendimento, em consequência do movimento de paralisação.

Greve em serviço público é crime, porque em casos como o das universidades e do HU, prejudica não o governo mas a população. O povo não pode ser vítima, mas nisso a insensatez dos comandos grevistas não difere da dos governos. Ocorre que as universidades não pertencem aos professores e aos servidores, mas à sociedade. Se é justa a reivindicação, não é correta a postura intransigente de manter uma greve que atinge universidades e um hospital que atende a carentes, não só de Londrina mas de todo o Paraná. Por outro lado, governos competentes não congelam salários, como fizeram FHC e Jaime Lerner. São grandes os prejuízos com a paralisação da atividade escolar e o sacrifício do próximo vestibular. Os estudantes perdem, a imagem das universidades fica obscurecida e há um abalo na vida econômica da comunidade.

O momento recomenda ao comando da greve Conselho Universitário incluído que retome as atividades e que o vestibular se realize. Não tem nenhum fundamento a argumentação de que, em tais condições, não haveria segurança para os vestibulandos, porque para isto bastaria requerer ajuda dos organismos de segurança. A presença do policiamento dará garantia à realização das provas, pois um exame vestibular só utiliza salas e fiscais; não requer servidores e nem professores.

Há que fazer uma trégua e aguardar o mês de abril anunciado pelo governador, porque no correr do presente exercício pouco poderá ser feito. Há uma promessa do governo para essa data, então que as lideranças comunitárias o amarrem nesse compromisso empenhado, e comecem a contar os dias. Mas sem greve.

O movimento reivindicatório terá que mobilizar a população e continuar, se necessário com a presença dos comandos de greve acompados diante do Palácio Iguaçu, para lembrar o governador de sua palavra, mas é preciso restabelecer as atividades nas universidades e o atendimento pleno no Hospital Universitário. Se não há indicativo de que a reivindicação seja atendida agora, há um sinal de que tal possa ocorrer dentro de quatro meses. Quem esperou seis anos pode esperar um pouco mais, porque é certo que essa greve continuada já começa a assumir caráter de irresponsabilidade e de domínio dos campus pelos comandos grevistas. Mais um pouco e a comunidade começará a voltar-se contra os grevistas.

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