Os índices da inflação nos últimos tempos impressionam pelo tamanho diminuto a que foi reduzido o monstro que durante toda a década de 80 e começo dos anos 90 assombrou a economia e a vida dos brasileiros. A Fipe, que registra as variações em São Paulo, está apontando deflação desde a primeira quadrisemana de agosto. As pesquisas em âmbito nacional não são muito diferentes. De fato, por mais incrível que pareça, o Brasil está entrando num novo tempo, ostentando taxas de inflação que não se viam há 50 anos. E tudo isto sem que tenham se concluído as reformas estruturais.
A conclusão, óbvia, que se deve tirar desta última ressalva não é que as reformas constitucionais - empacadas no Congresso - sejam desnecessárias. Mas que estaríamos em condições muito melhores - sem juros estratosféricos, sem tanto desemprego, concordatas e falências - se as reformas já estivessem implantadas.
Uma rápida análise aponta claramente que os indicadores inflacionários começaram a declinar de modo acentuado depois que a economia absorveu os últimos reajustes tarifários. Não é de hoje que se tem insistido que uma das causas da pressão inflacionária tem sido a má administração da maioria das estatais, o que se reflete em tarifas caras e maior demanda por recursos do mercado, com inevitável pressão sobre as taxas de juros.
Os recentes reajustes não provocaram uma explosão nos índices porque a economia está crescendo abaixo do padrão histórico brasileiro. Um mercado desaquecido puxa os preços para baixo. É o que se vê no ramo de alimentos, no de vestuário e até nos aluguéis, que em outras épocas eram responsáveis por muitos picos inflacionários.
A questão é saber se as taxas de crescimento do PIB, deprimidas pelos juros e pelo ‘custo Brasil’, não vão aumentar o desemprego muito além do suportável, enquanto as reformas ficam empacadas. Por outro lado, como o Governo vai continuar contando com os recursos do FEF, isto também ajuda a tirar das reformas a sua urgência, contribuindo para tudo ficar como está. O FEF permite um remanejamento de recursos que alivia a pressão sobre as contas públicas, o que também aumenta o comodismo.
Mas o processo econômico não admite paliativos, mistificações ou ilusões. É preciso um mínimo de aquecimento para colocar a população jovem no mercado de trabalho e garantir o emprego dos já empregados. É preciso fazer as reformas para reestruturar o Estado brasileiro - nos níveis federal, estadual e municipal e nos três poderes. É preciso criar outro sistema tributário, liquidar o ‘custo Brasil’ e modernizar portos, estradas e ferrovias, mediante privatizações e investimentos locais e externos.
O de que não se necessita é comemorar o desempenho do Plano Real no aspecto de combate à inflação e relegar a plano secundário todo o resto que precisa ser feito. As reformas - se forem para valer e em profundidade - darão a certeza de perenidade ao Plano Real. Ao contrário, sem elas o País ficará eternamente em marcha lenta e acumulando desemprego, falências, prejuízos e desestímulo.

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