EDITORIAL
Permissividade para bancos
Uma coisa nunca compreendida do governo de Fernando Henrique Cardoso é a permissividade para os bancos operarem com os juros liberados e tão exorbitantes. Em novembro os bancos ganharam o correspondente a 65,8% ao ano, quando a inflação oficial anual é anunciada como de menos de 10%.
O custo do dinheiro, que inviabiliza qualquer empresa que se envolva com empréstimo bancário e desconto de títulos e é difícil livrar-se de tais operações é um fator altamente responsável pelo abandono de negócios, pela inadimplência, pelo temor dos empresários em expandir atividades, pela retração econômica, e na ponta da linha o desemprego.
Ontem mesmo este jornal divulgou citando números do IBGE e do DIEESE que em outubro (último mês tomado como referência) a indústria nacional encolheu e o desemprego cresceu. Também a Confederação Nacional da Indústria, de sua vez, demonstra que naquele mês as indústrias tiveram o seu pior desempenho.
Ocorre que a moeda em mãos dos consumidores está escassa, porque estagnada e em grande parte aprisionada em poder dos bancos (e dos fundos). E quando liberada, sai contaminada pelo vírus do juro corrosivo, e assim tais recursos nunca gerarão desenvolvimento, mas só mais endividamento e risco de inadimplência, parentes próximos do atraso.
Em 1999 o Banco Central anunciou um programa de redução dos juros e do spread bancário que é a diferença entre o custo de captação e a taxa de juros cobrada dos clientes. Veja-se o volume desse spread, se tomarmos as duas extremidades do sistema financeiro vigorante, que paga 0,70% ao mês à caderneta de poupança e outras aplicações, e cobra 9% do cheque especial. O anunciado propósito do BC não passou disso: apenas um propósito.
Com o advento do projeto antiinflacionário deste governo, alguns avanços ocorreram até por força do baixo consumismo mas a contradição é o mesmo governo (entenda-se o Banco Central e o Ministério da Fazenda, de poderosos titulares) estimular a política de juros altos, para conter a disseminação da moeda e o consumo. Política equivocada, pois é justamente o consumo que promove o crescimento de um país, pela dinamização do comércio, que aciona a fábrica, que gera o emprego.
Com o consumismo todos ganham, inclusive o governo, que passa a arrecadar mais tributos e assim realiza mais obras. É toda uma reação em cadeia, e o resultado é a explosão desenvolvimentista. Mas não haverá desenvolvimento com o dinheiro aprisionado e só liberado mediante juros extorsivos, a não ser aquele destinado ao favorecimento de grupos privilegiados. Os juros dos bancos e demais instituições financeiras como as operadoras de cartões de crédito, que cobram 10% ao mês ultrapassaram o limite do permissível e passaram a ser uma ofensa pública.





