EDITORIAL
Domínio sobre a energia
Um dos temores é que a venda da Copel, tão desejada pelo governo, venha a causar o aumento das tarifas, com isso afastando os projetos de novos empreendimentos industriais e provocando retração econômica. O domínio da energia elétrica, pelo Estado, é fundamental no processo de desenvolvimento, ademais em tempos de racionamento energético e em momentos de incerteza sobre os rumos da economia mundial.
Esse temor é reforçado agora, em entrevista a este jornal, pelo especialista Ildo Sauer, professor de pós-graduação em Energia da Universidade de São Paulo, e autor de dois livros sobre modelos de privatização no Brasil. Ele afirma que sem a Copel o Paraná empobrecerá. Demonstra que o preço da energia elétrica aumentou 100% no mercado nacional, desde 1995, e que, com a privatização, a tarifa vai mais que dobrar. O impacto desse aumento, naturalmente, pesará sobre a população, e assim também o povo ficará mais empobrecido.
Esse renomado estudioso da questão energética estima que a Copel vale pelo menos duas vezes mais que o preço estipulado para o lance inicial do leilão, e que vender a empresa em partes, como agora o governo insiste em fazer, irá desvalorizar todo o conjunto.
Ildo Sauer usa expressões pesadas e afirma que ou o governo está ''com problemas de sanidade mental'' ou visa obter lucros com negócios escusos. Entre esses negócios estariam as parcerias denunciadas pelas oposições na Assembléia Legislativa e tornadas públicas por este jornal. Trata-se das empresas ''parceiras'' criadas pela atual diretoria da Copel, no período da pré-privatização, para executar serviços mediante comissões aos seus dirigentes, todos ligados ao atual governo que a Copel já realizava, e com eficiência.
Os contratos de criação dessas parcerias, com a duração de 10 anos, estabelecem gordas indenizações em caso de venda da Copel. Justamente em função disso elas foram criadas, daí o interesse de certos segmentos da Copel em leiloar a empresa. Uma delas encarregada de intermediar a venda de energia por atacado, para fora do Estado foi interditada pela Justiça depois da denúncia.
Todos os argumentos do governo para desfazer-se da companhia de eletricidade são combatidos pelo especialista da USP. Um deles o de que o dinheiro da venda salvaria a Previdência do Estado. Ele atribui isso a ''uma desculpa esfarrapada'', eis que a Copel já dá lucro ao Paraná e produz fluxo de caixa. Ademais, a delicada situação financeira internacional, associada a uma guerra que, direta e indiretamente, envolve todos os países do mundo, é um risco para os potenciais compradores da Copel. Agora, com toda certeza, mais amedrontados ainda com a descoberta das parcerias, que retiram substanciais fatias de lucro dos eventuais candidatos à compra da empresa.
Todas essas verdades e todos os alertas que vêm sendo feitos não sensibilizam o governo, porque não há nenhum espírito paranista no anseio de vender a Copel, sob o pretexto (inconcebido) de que a empresa se inviabilizará, no futuro, se não for vendida agora. São outras as razões, a principal delas a receita que o governo terá com essa transação, ademais em final de mandato, quando qualquer governante esquece as razões do Estado e pouco se importa com a herança que deixará ao sucessor.





