EDITORIAL
Parece haver a crença de que dinheiro do povo não tem dono
Cultura da corrupção
Parece que estamos mesmo fadados a conviver, não se sabe até quando, com a síndrome da fraude envolvendo toda e qualquer ação que parta do Poder Público. Agora, se não bastasse tudo o que já corre pela Justiça sempre às voltas com questões que têm a ver com suspeitas de corrupção, ou denúncias comprovadas, na esfera oficial mais um caso chega ao conhecimento da população. É a suspeição de que pode estar viciada a licitação para contratação de serviços de informática, pelo Departamento de Trânsito do Paraná. Um negócio envolvendo R$ 110 milhões.
A questão já está na Justiça, na forma de uma liminar concedida pela 4 Vara da Fazenda Pública de Curitiba e que suspendeu a abertura dos envelopes de licitação. Porque há suspeita de que o edital beneficia a contratação de uma empresa que já presta serviços ao Detran desde 1995, a Positivo Informática.
Interessante que outro ponto questionado na Justiça é a designação do secretário do Governo, José Cid Campêlo Filho, para a presidência da comissão de licitação. Um representante da esfera governamental deveria conferir credibilidade ao processo, mas está acontecendo exatamente o contrário.
A lei das licitações é clara, mas a ação judicial impetrada também denuncia a falta de audiência pública, no caso obrigatória se o valor da concorrência ultrapassa R$ 150 milhões que no presente caso ocorre, pela contabilização dos reajustes anuais. E há mais uma denúncia grave no caso: que o serviço solicitado também já é desenvolvido pela Celapar, no Detran, a custo mais baixo. Quem levanta essa questão junto ao Ministério Público é o Sindicato dos Empregados de Processamento de Dados do Paraná.
Questões que envolvem dinheiro são sempre tentadoras, e na esfera oficial a tentação é ainda maior, porque parece haver a crença de que os recursos do povo não têm dono e estão disponíveis para quem for mais esperto e conseguir colocar a mão neles. Vigora, no círculo do poder governamental deste país, a mentalidade de que não há que prestar contas ao povo e que ser governo, ao detentor, desse poder há o direito de posse e domínio pleno do dinheiro público.
É comum ouvir de certos governantes, nas mais diferentes esferas, que eles são credores beneméritos pelos benefícios que concedem ao povo. Alguns fazem cálculos numéricos, contabilizando obras realizadas e julgam-se com direito aos dízimos...
O poder realmente fascina, e o desfile de tanto dinheiro diante dos olhos dos governantes talvez lhes dê a idéia de abundância, de um poço sem fim de riqueza, e isso desperta-lhes desejos adormecidos no âmago de seu debilitado espírito público. Na linguagem popular se dá a isso o nome de gatunagem.





