Indesejável herança

À medida que os meses avançam vai se afunilando também o tempo hábil que o atual governo do Paraná dispõe para utilizar, em proveito para o Estado, o dinheiro que espera receber com a projetada venda da Copel. Mais um pouco e o beneficiado poderá ser o próximo governador, cujos pré-candidatos conhecidos - de posição francamente contrária à privatização - acabarão auferindo as benesses da fabulosa soma que entrará para os cofres do Estado. O governo sabe disso e mobiliza-se para que um terceiro leilão aconteça - já se falando que seria em meados do próximo mês - e busca por todas as formas impedir novas liminares contra a venda.
Esse obsessivo anseio de desfazer-se da companhia de eletricidade, que é o mais rico patrimônio estatal paranaense, vai alargando as suspeições de que o interesse dos privacionistas não é apenas resolver problemas de caixa do governo, mas também beneficiar terceiros envolvidos, que são os detentores das 29 parcerias que a atual diretoria da Copel criou desde que a Assembléia Legislativa aprovou lei, há três anos, autorizando a privatização da empresa.
A configuração dessas parcerias - que estão em mãos de ex-diretores da Copel e de outras pessoas ligadas ao atual governo - só agora ficou conhecida, por conta de denúncia da oposição e que desnudou primeiro a Tradener, subsidiária que passou a intermediar a venda de energia no atacado, para fora do Estado, e depois as demais. Foi, porém, pelas reportagens deste jornal que o grande público tomou conhecimento das razões do advento dessas empresas parceiras. Ocorre que as cláusulas contratuais de tais empresas estabelecem vultosas indenizações caso sejam fechadas ou absorvidas pelo eventual comprador da Copel.
Se a venda, por um lado, solucionará parte dos problemas financeiros do governo - incluindo a retomada das ações da empresa caucionadas junto ao Banco Itaú, no montante de R$ 500 milhões - é certo que, a qualquer tempo, a venda beneficiará aquelas empresas, beneficiadas que já são pelas comissões que recebem por serviços que a empresa-mãe realizava com eficiência. A iminente venda da Copel, o enclave do pedágio, previsto para durar mais 21 anos, os royalties de Itaipu já recebidos por antecipação, a enorme dívida do governo, tudo isso compõe uma indesejável herança que o atual governo deixa para os quatro sucessores, com reflexos que se estenderão para um futuro ainda mais longínquo.
O que este governo fez de prejudicial ao Estado já basta para comprometer a população paranaense por longo tempo. Então, os cidadãos deveriam ser poupados de mais essa sangria, que é a transferência para terceiros - eventualmente consórcios estrangeiros - do valioso patrimônio representado pela Copel. Lembre-se que a empresa é também geradora de benefícios financeiros para o Estado, e que eles cessarão com a privatização.

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