Editorial
A verdadeira denúncia do ex-presidente José Sarney, agora presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, sobre as manobras maquiavélicas do governo dos Estados Unidos em relação à América do Sul, especificamente aos países do Cone Sul, deve merecer atenção e cuidado. Sarney, comentando o entrevero que surgiu diante da posição do presidente argentino, Carlos Menem, que se mostrou totalmente contrário à pretensão brasileira de obter assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, aprofundou a questão para mostrar as artimanhas do governo norte-americano em relação aos mais importantes países do Sul do Continente, Brasil, Argentina e Chile. Assim, enquanto acena com um convite para tornar a Argentina parceiro militar, com as mesmas regalias dos países da Otan, o governo de Washington corteja o Chile para vender os mais modernos artefatos bélicos e, paralelamente, dá a entender que apóia a pretensão brasileira em relação à ONU. Para Sarney, esta postura complicada dos norte-americanos tem a ver com uma pretensão muito mais ampla, a de criar problemas para a integração do Cone Sul, consubstanciada no Mercosul.
Com a experiência acumulada, inclusive na presidência da República, o sr. Sarney tem suficiente credibilidade em sua análise. E o que ressalta dela, menos do que este eventual exercício de manipulação por parte do grande vizinho do Norte, é a aparente intenção de manter sob controle os países do Continente, numa época em que as relações mundiais deveriam estar em nível bem diferente. Ademais, há um complicador nesta equação, referente à questão dos armamentos. O governo norte-americano, visando melhorar as condições para sua indústria bélica - que sofreu naturais perdas com o fim da guerra fria -, resolveu acabar com a restrição, imposta durante o governo Jimmy Carter, à venda de armas para a América Latina. Carter tinha um propósito quando conseguiu impor a restrição: era uma época de ditaduras no Continente e os Estados Unidos estavam francamente a favor da democratização mundial. Sob tal ponto de vista, a suspensão das restrições é lógica, já que hoje a América Latina vive praticamente sob a democracia.
Mas é certo que não há motivo - e principalmente interesse - por uma corrida armamentista na região. Quem se interessa, logicamente, são os industriais do setor, com um eventualmente compreensível apoio do governo dos Estados Unidos. E este apoio acaba por ser fator relevante, inclusive porque conseguir as boas graças do governo norte-americano constitui alguma coisa de importância para qualquer governante e não só no nosso Continente. Mas quando se observa todo um jogo, como este que o sr. Sarney denunciou, fica a impressão de que há mais coisas envolvendo o assunto. Vem mesmo a impressão de uma ampla manobra destinada a cindir os países desta área, com o propósito de manter sobre eles uma supremacia desnecessária.
Brasil, Argentina e Chile, assim como Uruguai e Paraguai, têm hoje posições muito claras sobre seus interesses comuns. Seria de lamentar se esta situação fosse prejudicada por manobras externas. Neste final de semana, os países do chamado Grupo do Rio vão se reunir no Paraguai e, certamente, estas questões deverão ser abordadas. Será importante que, livres de ingerências, Brasil, Argentina e Chile entendam que o maior interesse comum é o da união em torno não só do Mercosul, mas dos princípios de cooperação que representam hoje o anseio dos povos que compõem o Cone Sul. É sob a ótica do interesse comum que as coisas, inclusive a justificada pretensão brasileira de ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, devem ser analisadas.





