O brado da cidadania


''Não se pode esperar que em véspera de ano eleitoral um deputado da oposição elogie o pedágio'', declarou a este jornal o secretário dos Transportes, Nelson Justus, referindo-se a um parlamentar que fez críticas a itens do contrato com as concessionárias. O secretário incorre em equívoco, pois nunca houve elogios de ninguém ao pedágio, em tempo algum. Os próprios deputados situacionistas, na maioria, têm poupado defesas ao pedágio. Quanto aos usuários das rodovias e a opinião pública em geral, nem se fala, porque a indignação é total.
O governo estadual está obcecado em atribuir qualquer crítica a oportunismos da oposição. O governador, em sua visita a Londrina, voltou a bater na mesma tecla e falou até em políticas arquitetadas de difamação. Natural que nos períodos que antecedem eleições aflorem com mais intensidade as críticas ao poder, mas ou o governador e seu secretários não têm conhecimento da revolta popular, contra suas palavras e seus atos porque os assessores os poupam de informá-los sobre isso ou ainda não se sintonizaram no que os veículos de comunicação independentes estão dizendo. Quem sabe também esses, no entendimento governamental, perfilam entre os opositores e difamadores...
Sabe o governo mas parece não dar muita importância que há uma greve de mais de dois meses dos servidores públicos estaduais, e ainda não houve um diálogo sério e franco a respeito, entre as partes. Sabe o governo do descontentamento da população com o modelo de pedágio implantado, e o secretário dos Transportes, se mais não bastasse, anuncia que as duplicações de rodovias (que ainda não começaram, a não ser alguns contornos) poderão ser postergadas, embora nunca tenha sido postergada a cobrança do pedágio, nem postergados os aumentos anuais de tarifas, como esse que vai acontecer na próxima semana.
Também sabe o governo o que pensam os paranaenses sobre a venda da Copel, e no entanto a teimosia palaciana persiste, pois o próprio governador afirmou em Londrina que a empresa voltará a ser posta em leilão, ainda este ano. Não há ponderações e meios-termos, mas uma obsessão de imaginar que tudo o que contraria o governo é campanha de oposição. Longe de enxergar que a população inteira do Paraná é que está protestando, unanimemente, contra uma infinidade de coisas.
Sabe o governo que, se há políticos oportunistas, o povo não é induzido por eles e não lhes deposita confiança, então não há legitimidade na afirmação de que tudo é intriga da oposição. Esse é um velho discurso que já não encontra ressonância. A indignação é popular e a causa são as ações arbitrárias e antipovo cometidas pelo governo.
O Paraná não é nenhum desses feudos onde o povo fica a reboque dos políticos e se guia pelo que eles ordenam. Deve pois o governo mudar o enfoque de sua visão e atentar para as vozes que emanam das multidões. Há no ar um brado de cidadania, que parte de todos os pontos do Paraná, mas o governador e seus leais servidores parece não haverem ainda se apercebido disso.

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