Copel, indícios de escândalo


Não basta o governo do Estado vir a público com notas oficiais e repetir o velho discurso de que as críticas às parcerias feitas pela Copel são ''oportunismo politiqueiro'' das oposições. O que o governo tem de explicar exige muito mais que retaliação de ordem política, porque é o povo que questiona e reclama transparência nos negócios públicos, muito especialmente no caso da Copel, que é o assunto do momento e agora ganha maiores dimensões por conta da suspeita de favorecimentos no caso das parcerias criadas neste período de pré-privatização.
Esses novos fatos que ganham espaço especial na edição de hoje deste jornal têm todos os indícios de escândalo, exigindo do governo que faça mais do que contestações, mas determine uma auditoria ampla e venha a público dar melhores explicações à população. O Sindicato dos Engenheiros do Paraná que não compõe o grupo do ''oportunismo politiqueiro'' afirma, pela palavra de seu presidente Carlos Bittencourt, que são imorais as parcerias que acabam de ser feitas pela Copel ao entregar a exploração de serviços altamente lucrativos a subsidiárias (criadas desde que a Assembléia Legislativa aprovou, há três anos, a lei da privatização da Copel, que foi mantida na célebre sessão de agosto último).
Essas parcerias não trouxeram nenhum benefício à Copel e só tiveram o objetivo de drenar dinheiro para oportunistas privilegiados e vinculados ao próprio sistema. A empresa não tinha necessidade de terceirizar serviços que vinha fazendo com eficiência. A criação da empresa Tradener no momento suspensa pela Justiça visava apenas captar a comissão (de 2%) sobre a venda de energia da própria Copel no mercado atacadista. Indiscutivelmente, uma generosa ação entre amigos, que tem todos os ingredientes de corrupção.
Tudo foi preparado a partir do momento em que privatizar a Copel se tornou lei, e de forma a que, no caso de rescisão dos contratos, a Copel (entenda-se os novos donos que se esperava) teria de pagar ressarcimentos, e bastante elevados. Um dos interesses de certas alas, em vender a empresa, residia (como ainda reside) no ganho dessas gordas indenizações. Porque os adquirentes da Copel, se houver, terão de honrar essa cláusula contratual, ou permitir que essas parceiras continuem no negócio. No caso da Tradener, o contrato é de 10 anos, com exclusividade, e permite a continuidade do direito às comissões mesmo em caso de cessação da venda de energia para fora do Estado.
Na verdade, ao decidir-se pela venda da Companhia Paranaense de Energia, o governo, além de contrariar a vontade da população, estava oferecendo um mau negócio aos potenciais compradores. Os curtos prazos estabelecidos não permitiram tempo hábil para o exame minucioso de todos os contratos de parcerias, que seriam 29 no total. Porém, a simples consulta ao ''data room'' da Copel alertou os compradores inscritos. Entende-se agora porque, depois da ratificação da venda pela Assembléia, o governo apressou-se em realizar o leilão o que acabou não acontecendo por falta de interessados.
A Tradener é apenas uma das subsidiárias criadas, porque uma outra a Escoeletric trata da montagem de máquinas e usinas, e a Copel Agra administra os serviços de engenharia, mediante comissões, a título de taxa de administração. Todos serviços que a Copel já realizava satisfatoriamente. Como essas parcerias foram firmadas nos últimos três anos que vêm desde que a Assembléia aprovou a lei da privatização começa-se a entender a razão de criar essas empresas intermediadoras. Na verdade empresas que se poderia qualificar de fantasmas, porque é a Copel que faz tudo. Enfim, beneficiárias dos lucros mas não participantes da produção.
O estabelecimento, em vésperas da venda da empresa-mãe, de indenizações milionárias a essas empresas parceiras, em caso de rescisão de contratos, demonstra a intenção de favorecê-las. De um lado a generosidade das comissões, e de outro a certeza das indenizações.
O Sindicato dos Engenheiros do Paraná está ingressando com recurso no Supremo Tribunal Federal para anular os contratos da Tradener e da Escoeletric, e pede ainda que o leilão da Copel seja definitivamente cancelado. Felizmente não é apenas a comunidade do ''oportunismo politiqueiro'' que está agora trazendo dor de cabeça ao governo, mas também o Ministério Público e a Justiça.
Já não se discute que a Copel, ao transferir a grupos do setor privado fatias generosas do mercado até então exclusivo da empresa, tornou o negócio menos atrativo para os arrematadores das primeiras horas, que acabaram se afastando um a um. O que causa perplexidade é que havia (e ainda há), no interesse da venda da Copel, muito mais oportunistas do que supõe a vã filosofia da população paranaense.

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