EDITORIAL
A guerra do futebol
Enquanto as bombas caem sobre o Afeganistão, e os Estados Unidos sofrem mais um abalo com a queda ainda não bem explicada de um avião sobre Nova York, deixando mais de duas centenas de mortos, a nação brasileira veste o uniforme verde-e-amarelo e vai inteira para outra guerra, a de classificar a Seleção Brasileira de Futebol para a próxima Copa do Mundo. Este é um patriotismo à moda brasileira, mas não deixa de ser uma demonstração de unidade nacional.
Por um dia, 170 milhões de brasileiros esquecem os problemas do País e do mundo e concentram os sentimentos de amor à Pátria numa partida de futebol. Um desleixo em campo de um dos seus combatentes é cobrado com a mesma ira cívica com que cidadãos de certos países Estados Unidos sobretudo repudiam e punem um soldado desertor.
Tem-se cobrado dos patrícios uma presença mais efetiva na discussão de questões importantes, principalmente as que têm a ver com a qualidade de vida dos cidadãos, mas há que louvar um povo que, em meio a tantas adversidades, ainda tem no futebol uma de suas grandes preocupações. Poderia ser pior, como se costuma dizer o que não chega a ser um conforto, porque há suficiente miséria social castigando boa parte dos nossos iguais mas é certo que muito pior é a condição das nações que amargam as consequências diretas da guerra e as que enviam seus cidadãos para os campos de destruição e morte e vivem em transtorno pelo medo dos atentados.
Está fadado a ser plenamente feliz um povo que, como o brasileiro, não é amante de guerras e não a cultua entre os seus ideais patrióticos, eis que um verdadeiro patriotismo não tem nenhuma associação com derramamento de sangue. Pesquisa recente, feita depois dos atentados nos EUA, mostrou que os brasileiros são, na grande maioria, contrários a soluções armadas, não obstante as nações guerreiras do mundo queiram inocular nas mentes da população da Terra que o combate que ora se trava é necessário e que tal é o caminho certo.
Quando o presidente Fernando Henrique pronuncia-se e diz que não enviará tropas ao ''front'' do presente conflito, reflete a índole nacional totalmente avessa a ideais de matar ou morrer em campos de guerra. Falta muito ainda à nação brasileira para que o espírito de solidariedade impere soberano, e assim se corrijam as grandes desigualdades sociais, dentro do País, mas tranquiliza constatar que a qualidade da preocupação dos cidadãos é de baixos teores... Ou seja, não tememos um atentado interno e não vivemos a angústia de imaginar nossos filhos marchando rumo aos campos de batalha. Apenas nos atormenta a idéia de não classificarmos a Pátria no sentido mais ufano do termo para a Copa mundial de futebol.





