EDITORIAL
Ausência de diálogo
Inacreditável que instituições tidas como civilizadas, como o governo do Paraná, as universidades estaduais e o Sindicato dos Servidores Públicos, não tenham o suficiente grau de politização para sentar-se à mesa de negociações e acabar com a greve dos servidores, que já dura 50 dias (à exceção de Ponta Grossa, que desistiu do movimento). Os servidores lutam por melhoria salarial, o que é um pleito justo, o governo alega restrições impostas pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), e nesse impasse ninguém conversa. Muito pior é que o governo se nega a abrir o diálogo, e com isso parece pouco se importar com os estudantes, com a suspensão de vestibulares e com os prejuízos paralelos que estão ocorrendo.
Os comandos anunciam que a greve vai continuar, mesmo com eventual liminar da Justiça, e que não retornam às atividades antes de negociar diretamente com o governo. Hoje os grevistas farão nova manifestação, em Curitiba, reclamando a abertura das negociações. Enquanto isso, a Procuradoria Regional da República, em Londrina, anuncia que ajuizará, hoje, uma ação contra o governo, contra a Universidade de Londrina e contra o Sindicato dos Servidores Públicos, exigindo um acordo entre os envolvidos e o fim da greve, porque ela fere o direito constitucional dos universitários. O procurador reclama ainda a definição de um calendário escolar e que não se cancele o próximo vestibular. E em Cascavel os acadêmicos se articulam para buscar na Justiça o retorno às aulas.
É preciso que haja concessões de parte a parte e cesse essa intransigência turrona do governo e dos grevistas, porque no caso das universidades - estão entre eles os estudantes, que são a razão da existência dessas instituições e aos quais elas devem servir. Quem trabalha nas universidades precisa receber salários condignos, embora elas não existam com a função de gerar empregos e sim de formar cidadãos para construir o Brasil melhor que todos almejam. Os baixos vencimentos e a baixa qualidade dos serviços públicos se devem à secular prodigalidade da máquina estatal, que gasta e desperdiça à vontade em outros setores, sustenta quadros funcionais caríssimos e impregnou de vícios o sistema, para não falar da corrupção.
Tudo isso resultou pesado demais e obrigou, em boa hora, à criação de uma lei de responsabilidade fiscal, porém as sequelas não se extinguirão a um passe de mágica. O que temos hoje, em todo o Brasil, são administrações públicas mal estruturadas e com pouco critério gerencial. O Estado ainda investe onde não deveria, e se é pródigo demais em alguns setores, retira de outros, como o caso dos servidores que atuam em atividades essenciais como a saúde, a educação e a segurança.
Gastos exorbitantes em certos segmentos do sistema governamental, desperdício, dinheiro aplicado sem critério e a corrupção sem freios acabam resultando na escassez em setores fundamentais. A curto prazo é necessário resolver a questão da presente greve, e na sequência iniciar um processo que certamente será longo, pelo andar vagaroso da diligência para reformular os sistemas de governo, limpando-o das impurezas que já vêm desde o início da República. A LRF é um valioso instrumento, embora se ocupe de disciplinar gastos e aplicações de dinheiro e não da estrutura da máquina pública, onde há equipamentos e engrenagens que estão sobrando e que mais emperram que contribuem.





